Velouria

Nunca se começa uma história com a frase “Ia no meu BMW”, toda a gente sabe disso. Mas isto não é literatura. Isto não é nada. É apenas uma aversão. Aversão a uma vida. São os fios entrelaçados, quase sempre trocados e sem cor definida. A matéria cinzenta, os remoinhos, as suposições, os choques, de alguém profundamente desconcertado. Por isso, é assim que este texto começa. Por aí, em roda livre. Mas não se diz, salta-se para o lado de fora. Para o esquecimento.

By Ring Joid

on 21 Oct 09

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“Ia no meu BMW.” 

Estrada fora. Estrada sem fim. O pensamento perdido por coisas várias. Imagens que vinham e que iam, com a mesma velocidade que a boleia das árvores no rebordo do alcatrão. Uma vertigem de retratos desfocados e figuras oníricas, descarregadas na pequena retina do meu cérebro, varrendo qualquer ponto de lucidez.

Uma delas, a mais nítida, era a de Che Guevara. Talvez uma imagem que vira nessa manhã numa revista, destacada de outras fotografias suas, raras, a preto e branco. Ainda a vejo com grande detalhe. Agora. Metade do Che, quase em segundo plano no lado direito da imagem, de costas para uma janela, a espreitar na esquina de uma parede. No meio, um espaço neutro de uma sala vazia que se endireitava em linhas verticais. Perpendicular ao chão, a lisura de um papel de parede, que escorregava como uma folha de madeira envernizada. E no lado esquerdo, imune a toda esta história, inerte e sem pressas, uma geringonça estranha que me pareceu ser um rádio pequeno. Um aparelho antigo contemporâneo da câmara fotográfica que roubou aquele recorte à vida. Um objecto único, minimal, extraordinário. Desenhado com simplicidade na mente de um cientista cubano. E a guardá-lo, cheio de serenidade, um candeeiro de duas cabeças. Talvez o papel de parede fosse mesmo uma fina lâmina de madeira a sério, com todos os seus veios ainda em carne viva.

Che

Mas não era isso. Apesar do rádio ser tão impressionante, ou mais, como a figura de Che, na sua pose infantil, de costas para a janela. Isso não era tudo.

Com o pescoço inclinado, lá estava aquela figura distinta no seu traje cinzento, a detonar o verde que os militares sempre usaram e ainda continuam a usar. Puxando logo toda a imaginação para um colorido e para o calor de todo o registo. A levar-nos como testemunha para dentro da época. Para as mãos suadas do fotógrafo. Para os odores escarlates. Para o linóleo do chão que começa também a ganhar o seu tom. E uma sinfonia de ruídos lá fora pendurados na luz que entra por entre as lâminas metálicas dos estores. Que se despeja no homem fardado. Nas suas botas. Na barba e na franja desalinhada. E as veias da madeira na parede e mesmo os rodapés brancos que terminavam em algum lugar longe dali.

Não, não era isso.

Ou se calhar até era, eu é que de todo o modo posso estar a querer inventar todas as coisas.

No meu BMW perdia a remo daquele momento. Do momento que passava para dentro de mim e me fazia esquecer o volante, as rodas e as curvas. E agora era o sol a querer entrar pela copa das árvores que se transformavam em metais de persianas e em candeeiros de duas cabeças. Inclinadas. Que me escutavam, querendo ver o que estava a pensar. Sim, a auscultar-me dentro de uma sala sobre as pintas de um chão de linóleo.

Sei que não era isso porque de repente o estrondo acordou-me. Mas foi só por um segundo. O suficiente para que as minhas pestanas se abrissem e depois se fechassem, quase inutilizadas. Fumo de qualquer coisa. Um sabor gelado na minha boca. O sonho logo de imediato. O carro todo desfeito. Enfiado nas minhas retinas.

Despertei uma eternidade depois na cama de um hospital. Quando já ninguém esperava. Meses após toda a parafernália do meu enterro.

E agora que acordei não sei bem de que época sou. Onde fica essa estrada, onde está a tal telefonia. Vivo do que me dizem. Da opinião dos outros sobre o que foi toda a minha vida até ali, até ao embate. O momento do estrondo. Com todas as suas opiniões, os seus terjeitos, as suas maneiras curtas de pensar. Donas de casa, homens carrancudos, mãezinhas.

Nas noites que me levam a passear, em que me põe uma cerveja ou outra bebida na mão e se põem a contar. Lá estão eles. A falar sobre mim, sobre tudo o que fiz. Eu só me recordo do aparelho de rádio. E nada mais faz sentido.

Falam por si. Perguntam-me se me lembro, como foram engraçadas todas as aventuras que vivemos. E eu para não os desiludir com os meus progressos clínicos, encolho os ombros e digo que sim, que foi giro, que nos divertimos à brava. Com as correrias e tudo o resto que falam e que esqueço no minuto seguinte.

Sai por um ouvido, depois de entrar pelo outro.

Como foi o som? O estrondo? Terá sido um ruído lá fora a entrar pela janela? A trazer aquele tempo quente. Alguém a jogar à bola. Uns miúdos. Num relvado de parapeitos baixos. E o Che de pescoço inclinado. Como terá sido? Tento projectar esse registo e ouvi-lo de novo. Tirá-lo uma vez mais da caixa e apresentá-lo limpo como uma sequela remasterizada. Mas vem muito pouco. Não vem mesmo nada.

O que tenho a fazer é chegar àquele aparelho estranho, cheio de preto e de branco, e ligá-lo. É isso. O som metálico da época. Da cortina da máquina fotográfica a fixar aquele pedaço de tempo. A deixá-lo entrar por um obturador fininho.

E TRÁS!

Não, não foi TRÁS, foi mais do que isso. Uma bomba, uma explosão, alguma coisa a rebentar. O air-bag?

Nestes dias, há sempre alguém que me apanha quando vou mais distraído. O homem do talho, por exemplo, a encontrar-me na rua, com os seus lábios ensaguentados, a dizer-me: “As suas pernas de borrego de que gosta tanto já chegaram, senhor Joid.”

E eu que odeio carne. Eu que não posso pensar sequer numa faca.

Mas agora comprei um novo automóvel: “Um BMW!”

Não, não é igual ao outro, mas é bem parecido. Suponho que não faz mal. Já não existia o mesmo modelo. Não tinham a mesma cor. Tinha de vir de longe, lá da fábrica na Baviera ou de uma retrosaria de clássicos, e eu que não estava para isso, para esperar muito tempo. Estava com saudades de um sentimento que se tornou desconhecido. Um sabor a nostalgia. Queria reencontrar um amigo de longa data e tentar chegar à minha vida antes do estrondo. Antes de mim. Agora.

Era isso.

Nos dias que correm tento descrutinar sons que me são característicos. Que me tragam de volta as nódoas de mim, dos meus tempos idos. Do outrora. Procuro-os na suavidade da direcção assistida, na caixa de velocidades automática, no mostruário onde se encontra o conta-quilómetros. Mesmo o pedal do acelerador deve ter tanto para dizer. E para isso crio rotinas. De manhã passo um pano sobre todos os cantos daquela obra de arte à espera que se levante uma recordação. Que acorde, como eu, muitos meses depois e comece para ali a disparatar. Uma novidade que seja. Uma que não venha da boca de outra pessoa, que não traga um sorrisinho ou uma palmada nas costas. Que não se cruze comigo na longa fila para o elevador a olhar-me de soslaio com um ar devedor. Mas uma que me diga tudo e me deixe a adorar as minhas pernas de borrego.

Mas até agora nada. Nem sequer o nome do estrondo. A onomatopeia.
A vida continua é certo, não há grande remédio. Como certas mulheres que me vêem ao longe e atravessam a rua para eu as ver. Para me piscarem o olho e ajustarem a curva do movimento das ancas. As velas, os cintos de segurança, o ABS. Umas chegam a falar comigo. Dizem-me: “Olá, Ring, querido…” E eu. Sem saber de onde vem aquela confiança toda. Aquele aroma. De que parte chega aquele perfume que escondem tão bem dentro dos seus porta-luvas.

Deixo-me ir.

Terá sido um BANG? Terá feito espuma? Terei ficado de pescoço inclinado a espreitar? A minha barba já longa, crespa? O linóleo. O carmim de todo o calor. Os vapores do combustível que não chegou a explodir.
Só me vem o Che à cabeça. Com uma mão enorme. Gorda. As calças enfiadas nas botas da tropa. E toda a revolução a saltar-lhe pelos poros. Ainda por fazer.

BOOM!

Talvez quisesse ligar o rádio, ouvir o que tinha para dizer, o trepidar do meu desastre. As notícias. Ver-me ao vivo, no meu acidente, como eu o vejo agora a ele.

Talvez passe com uns dias mais. Umas histórias e uns contos de fadas. Umas idas aos estádios de futebol com aqueles que dizem ser meus amigos. Que se chegam. Que me abraçam. E se calhar dessa maneira consiga voltar de novo ao que era. Ao sangue do homem do talho. Ao sabor de lábios conhecidos. Aos seios volumosos. E esquecer-me dos cilindros e da grelha dos radiadores. Do nível do óleo. E ripostar: “Olá querida, foi tão bom no outro dia.”

Mas também não importa se ficar assim para sempre, a confundir todo o meu passado com uma fotografia do Che Guevara. É um bom amuleto. Um óptimo modelo. E este meu BMW novo até estaciona sozinho. Faz de mim um pioneiro da aerodinâmica. Nem preciso de lhe tocar. E sobretudo tem um fenomenal aparelho radiofónico. Com todos aqueles sucessos de outrora.

BZZZ!

É. É isso, não importa mesmo nada, esta minha aversão eléctrica.

[Este texto iniciou a rúbrica "Aversão Eléctrica" no jornal Hoje Macau, estávamos no dia 15 de Setembro de 2006. Teve, no entanto, curta duração. Por razões de desventuras literárias que fizeram com que a corda de ligação com a nave mãe se quebrasse. Mas já passou. Talvez um dia essa história, também ela, seja aqui contada. Não é promessa, no entanto, pelo sim pelo não, é sempre uma boa razão para aqui voltar.]
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