Num bailado tudo se resume ao compasso. Na escrita, quando se lê, é possível imaginar uma vida inteira e vaguear nela ao sabor do ritmo das palavras. No entanto estão lá os afectos, os distúrbios, a magnitude, mesmo quando não se diz nada, mesmo quando nada faz sentido. Os fonemas dão à ortografia o lúgrube estado de uma coreografia. E poderia dizer majestoso que seria a mesma coisa. Podia dizer muito ou pouco que têm exactamente o mesmo significado. Que derivam do mesmo sentido. Como preto e branco, sinónimos de uma mesma pessoa.
Bailarino polaco nascido na Rússia em 1890. Contemporâneo de Stravinsky, Tchaikovsky, Ravel, com quem trabalhou e de quem foi instrumento das suas obras. A personagem de Vaslav Nijinsky fascina-me desde os tempos da minha juventude. Não pelo virtuosismo como bailarino mas pelo mito criado à sua volta. Mais por pura ignorância do que por vontade do discernimento. Se isto diz tudo sobre mim também diz tudo sobre ele. O que me fez lá chegar foi o pedaço que deixou amassado na História. Foi isso que procurei, em vez do seu reportório, em vez das imagens em movimento que sobram nas reservas dos museus e fundações que se lhe dedicaram. Imagens sem o complemento sonoro, o que por si já é tudo, mas ao mesmo tempo não é nada. Não lhe dá a dimensão do sagrado e do tempo. O que vi foi um ser radical, fora de qualquer convenção e senso, único e inconfundível. A rasgar a gravidade e a redefinir as suas dimensões. A recriar a profundidade do espaço. Nijinsky era um selvagem apanhado numa sociedade onde não vivia cómodo. Dele podia fazer-se este retrato: quando alguém se lhe dirigia voltava furtivamente a cabeça como se de pronto quisesse dar-lhe um golpe no estômago. Quase que não falava com ninguém e parecia viver num plano à parte, fora de qualquer geometria humana. Era o seu corpo que comunicava, que sabia, eram os seus membros que detinham toda a inteligência e a sonoridade da sua voz. Ao não se poder descobrir-lhe as impressões pessoais era-se levado a suspeitar que na verdade elas não existiam. Que o seu cérebro era oco. Não era bem assim. Como nunca é bem assim.
De um compositor sobra a música, de um pintor sobram os quadros, ou pelo menos as etiquetas, de um escritor os livros. De Nijinsky resta a lenda, destilada em testemunhos embevecidos em cascos de orvalho. Só para dar uma alusão embriagada a tudo isto. Nijinsky foi a figura principal de Les Ballets Russes, protagonista de tremendos sucessos e de criações feitas à sua imagem por si coreografadas, como L’après-midi d’un faune, de Claude Debussy, que se transformou no ícone de toda a sua carreira [imagens 3 e 7 - da esquerda para a direita, de cima para baixo], e que constituiu um escândalo à época pelas conotações sexuais prementes na coreografia; os seus movimentos eram revestidos de uma bestialidade erótica. Foi esse registo que levou à erupção de uma fonte de tumultos gerados durante as estreias e uma das peças que o destacaram da corrente dominante e da dança tradicional: a glorificação do corpo, o extâse sem subterfúgios.
Dizia-se que uma aparente falta de equílibrio mental levavam Nijinsky a encontrar refúgio nos movimentos circulares. O que se sabe ao certo, para além de todo o engenho, é que cedo revelou sinais de uma enorme fragilidade emotiva. Vestígios da sua precoce demência tornaram-se aparentes quando começou a desconfiar dos membros da sua companhia, com receio que no palco em que flutuava tivessem colocado alçapões e deixado uma porta aberta para o abismo. Para o Inferno. O medo do salto para o escuro.
Este meu fascínio deteve-se de novo, recentemente, com a leitura dos Cadernos que o próprio escreveu no prelúdio de toda a sua loucura, um exercício prévio à sagração da primavera, no Inverno de 1919. Abrindo desse modo, no palco da escrita, um novo capítulo na vaga em que se detinha a sua presença no mundo. Depois de se ver consagrado em Paris e de povoar a Europa com as marcas do seu talento, vê-se privado dos Ballets Russes por ruptura afectiva com o seu director, e a consequente falta de apoio artístico e financeiro vieram empalidecer todo o seu percurso, tornando-o caótico. No regresso de uma digressão pela América do Sul, o que acabaria por ser a última da sua carreira, e na vertigem de um colapso nervoso, Nijinsky decide ir descansar para a Suiça. A sombra dos Alpes tranquilizou-o, mas em vão, e não por muito tempo. Das montanhas surgem também as ordens de Deus com que começa a exortar os habitantes da aldeia. Em Janeiro de 1919 empolga-se na escrita com a intenção de deixar um legado de mandamentos para a posteridade. Afectado por uma religiosidade profunda, Nijinsky começa a aterrorizar a sua família e todos os que o rodeiam, passando da agressividade a um estado contemplativo, onde uma harmonia em desequilíbrio tendia sempre a subsistir. A sua escrita é empolgada e compulsiva. O que escreve é o que lhe escorrega na mente; pensamentos em bruto que deixa cair para o papel em repetições efusivas e contraditórias.
Em associações e jogos de palavras que se juntam umas às outras, na sua sonoridade, em plena dissonância gramatical, a roçar o obsceno, Nijinsky torna-se evasivo e preso à sua obscuridade, a um passo da armadilha que ele próprio cria e da qual não consegue fugir, num tempo verbal que o acompanhou até à sua morte: a loucura. Perguntas que o atormentam desde muito jovem – a sexualidade, a vida, a morte, a paternidade, a linguagem – adquirem nos seus textos a forma de respostas acabadas, de certezas que não incluem explicação e argumento. Fala consigo próprio em variadíssimos tons numa procura constante da sua identidade, de si próprio, do que lhe sobra. Esgotado na profundidade do seu ser, que se perdeu na divindade e na glória:
“Quero assinar «Nijinsky» por causa da publicidade, mas o meu nome é Deus. Amo-o, porque ele me deu a vida. Não quero fazer elogios. Amo-o. Conheço-lhe os hábitos. Ele ama-me, porque me conhece os hábitos. Eu não tenho hábitos. O Nijinsky tem hábitos. O Nijinsky é um homem com erros. O Nijinksy deve ser ouvido porque fala pela boca de Deus. Eu sou o Nijinsky. O Nijinsky é eu. Não quero que façam mal ao Nijinsky, por isso vou protegê-lo. Tenho medo por ele, porque ele tem medo por ele…”
Tudo dito. Num período de tempo curto, colado à mesa durante horas e horas, Vaslav Nijinsky deixa o imenso que há dentro de si, em quatro cadernos que irão constituir «O Livro», que num ímpeto de universalidade quer ver publicado em vida em milhares de exemplares e que será uma «fonte de ensinamentos para a humanidade». Continuará até à última, até ao abcesso da sua temeridade, como sempre fez perante as luzes da glória. Até ao último passo para a sua vida menor, e em simultâneo infinita e não menos grandiosa, a sua vida negra e esquecida. O seu papel de louco. Onde se deixa cair. Em Março desse mesmo ano dá entrada num hospício em Zurique, onde é objecto de variados estudos, na tentativa de desprender a sua alma da apoteose do distorcido onde não pode mais representar. Nijinsky tinha apenas 30 anos de idade. Daí para a frente permanece fechado, numa clausura que dura outros trinta anos e da qual ninguém fala, mas para a qual eu me debruço com uma enorme vénia, dando-lhe tanta importância como a outra metade da sua existência. Viria a falecer em Londres em 1950. A legenda da última foto [em cima à esquerda] diz:
“Nijinsky, as primeiras imagens do bailarino mais afamado do mundo no seu retiro campestre perto de Londres. Vaslav Nijinsky, 58 anos, de cabelo branco e atarracado, aparentemente recuperado da doença mental que o afectou durante anos e que o impediu de continuar a sua grandiosa carreira, planeia agora o seu futuro. Pretende criar o World Theatre for Ballet ligando-o possivelmente a uma Universidade em Inglaterra ou nos EUA. Um milhão de libras serão necessárias para a envergadura do projecto, mas passos claros foram já dados para mover as rodas que levarão à realização deste seu sonho.”
Nijinsky morreria dois anos depois sem o concretizar. Esta sua última aparição veio completar a lenda do homem a quem o mundo nomeara como “deus da dança”, e que a dimensão da sua apoteose distorceu numa modificação profunda da sua personalidade. Numa palavra inteira e obtusa. Sem retorno. Híbrida. O de ser um Homem à altura. A altura de Deus misturado com o Diabo. Para o qual não existe um termo. Não existe fim. Porque Ele estará sempre aqui.
















2 Comments
“Destilada em testemunhos embevecidos em cascos de orvalho”, e achas tu que tens jeito para escrever, é? Que quer dizer isso?
Lindo, o Nijinsky. Obrigada pelo texto. Muito bom.