Vaslav Nijinsky

“Je suis bœuff mes pas bifftek
Je suis stek sens bœuf en biff
Je suis biff mes pas un stek
Je suis stek je suis stek
Stek et stek ne pas un biff
Biff et biff ne pas un stek
Bifstek, bifstek, bifstek biff…”

VN in “Lettre à Gabriel Astruc”

By Ring Joid

on 22 Oct 09

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Num bailado tudo se resume ao compasso. Na escrita, quando se lê, é possível imaginar uma vida inteira e vaguear nela ao sabor do ritmo das palavras. No entanto estão lá os afectos, os distúrbios, a magnitude, mesmo quando não se diz nada, mesmo quando nada faz sentido. Os fonemas dão à ortografia o lúgrube estado de uma coreografia. E poderia dizer majestoso que seria a mesma coisa. Podia dizer muito ou pouco que têm exactamente o mesmo significado. Que derivam do mesmo sentido. Como preto e branco, sinónimos de uma mesma pessoa.

Bailarino polaco nascido na Rússia em 1890. Contemporâneo de Stravinsky, Tchaikovsky, Ravel, com quem trabalhou e de quem foi instrumento das suas obras. A personagem de Vaslav Nijinsky fascina-me desde os tempos da minha juventude. Não pelo virtuosismo como bailarino mas pelo mito criado à sua volta. Mais por pura ignorância do que por vontade do discernimento. Se isto diz tudo sobre mim também diz tudo sobre ele.  O que me fez lá chegar foi o pedaço que deixou amassado na História. Foi isso que procurei, em vez do seu reportório, em vez das imagens em movimento que sobram nas reservas dos museus e fundações que se lhe dedicaram. Imagens sem o complemento sonoro, o que por si já é tudo, mas ao mesmo tempo não é nada. Não lhe dá a dimensão do sagrado e do tempo. O que vi foi um ser radical, fora de qualquer convenção e senso, único e inconfundível. A rasgar a gravidade e a redefinir as suas dimensões. A recriar a profundidade do espaço. Nijinsky era um selvagem apanhado numa sociedade onde não vivia cómodo. Dele podia fazer-se este retrato: quando alguém se lhe dirigia voltava furtivamente a cabeça como se de pronto quisesse dar-lhe um golpe no estômago. Quase que não falava com ninguém e parecia viver num plano à parte, fora de qualquer geometria humana. Era o seu corpo que comunicava, que sabia, eram os seus membros que detinham toda a inteligência e a sonoridade da sua voz. Ao não se poder descobrir-lhe as impressões pessoais era-se levado a suspeitar que na verdade elas não existiam. Que o seu cérebro era oco. Não era bem assim. Como nunca é bem assim.

De um compositor sobra a música, de um pintor sobram os quadros, ou pelo menos as etiquetas, de um escritor os livros. De Nijinsky resta a lenda, destilada em testemunhos embevecidos em cascos de orvalho. Só para dar uma alusão embriagada a tudo isto. Nijinsky foi a figura principal de Les Ballets Russes, protagonista de tremendos sucessos e de criações feitas à sua imagem por si coreografadas, como L’après-midi d’un faune, de Claude Debussy, que se transformou no ícone de toda a sua carreira [imagens 3 e 7 - da esquerda para a direita, de cima para baixo], e que constituiu um escândalo à época pelas conotações sexuais prementes na coreografia; os seus movimentos eram revestidos de uma bestialidade erótica. Foi esse registo que levou à erupção de uma fonte de tumultos gerados durante as estreias e uma das peças que o destacaram da corrente dominante e da dança tradicional: a glorificação do corpo, o extâse sem subterfúgios.

Dizia-se que uma aparente falta de equílibrio mental levavam Nijinsky a encontrar refúgio nos movimentos circulares. O que se sabe ao certo, para além de todo o engenho, é que cedo revelou sinais de uma enorme fragilidade emotiva. Vestígios da sua precoce demência tornaram-se aparentes quando começou a desconfiar dos membros da sua companhia, com receio que no palco em que flutuava tivessem colocado alçapões e deixado uma porta aberta para o abismo. Para o Inferno. O medo do salto para o escuro.

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Este meu fascínio deteve-se de novo, recentemente, com a leitura dos Cadernos que o próprio escreveu no prelúdio de toda a sua loucura, um exercício prévio à sagração da primavera, no Inverno de 1919. Abrindo desse modo, no palco da escrita, um novo capítulo na vaga em que se detinha a sua presença no mundo. Depois de se ver consagrado em Paris e de povoar a Europa com as marcas do seu talento, vê-se privado dos Ballets Russes por ruptura afectiva com o seu director, e a consequente falta de apoio artístico e financeiro vieram empalidecer todo o seu percurso, tornando-o caótico. No regresso de uma digressão pela América do Sul, o que acabaria por ser a última da sua carreira, e na vertigem de um colapso nervoso, Nijinsky decide ir descansar para a Suiça. A sombra dos Alpes tranquilizou-o, mas em vão, e não por muito tempo. Das montanhas surgem também as ordens de Deus com que começa a exortar os habitantes da aldeia. Em Janeiro de 1919 empolga-se na escrita com a intenção de deixar um legado de mandamentos para a posteridade. Afectado por uma religiosidade profunda, Nijinsky começa a aterrorizar a sua família e todos os que o rodeiam, passando da agressividade a um estado contemplativo, onde uma harmonia em desequilíbrio tendia sempre a subsistir. A sua escrita é empolgada e compulsiva. O que escreve é o que lhe escorrega na mente; pensamentos em bruto que deixa cair para o papel em repetições efusivas e contraditórias.

Em associações e jogos de palavras que se juntam umas às outras, na sua sonoridade, em plena dissonância gramatical, a roçar o obsceno, Nijinsky torna-se evasivo e preso à sua obscuridade, a um passo da armadilha que ele próprio cria e da qual não consegue fugir, num tempo verbal que o acompanhou até à sua morte: a loucura. Perguntas que o atormentam desde muito jovem – a sexualidade, a vida, a morte, a paternidade, a linguagem – adquirem nos seus textos a forma de respostas acabadas, de certezas que não incluem explicação e argumento. Fala consigo próprio em variadíssimos tons numa procura constante da sua identidade, de si próprio, do que lhe sobra. Esgotado na profundidade do seu ser, que se perdeu na divindade e na glória:

Quero assinar «Nijinsky» por causa da publicidade, mas o meu nome é Deus. Amo-o, porque ele me deu a vida. Não quero fazer elogios. Amo-o. Conheço-lhe os hábitos. Ele ama-me, porque me conhece os hábitos. Eu não tenho hábitos. O Nijinsky tem hábitos. O Nijinsky é um homem com erros. O Nijinksy deve ser ouvido porque fala pela boca de Deus. Eu sou o Nijinsky. O Nijinsky é eu. Não quero que façam mal ao Nijinsky, por isso vou protegê-lo. Tenho medo por ele, porque ele tem medo por ele…

Tudo dito. Num período de tempo curto, colado à mesa durante horas e horas, Vaslav Nijinsky deixa o imenso que há dentro de si, em quatro cadernos que irão constituir «O Livro», que num ímpeto de universalidade quer ver publicado em vida em milhares de exemplares e que será uma «fonte de ensinamentos para a humanidade». Continuará até à última, até ao abcesso da sua temeridade, como sempre fez perante as luzes da glória. Até ao último passo para a sua vida menor, e em simultâneo infinita e não menos grandiosa, a sua vida negra e esquecida. O seu papel de louco. Onde se deixa cair. Em Março desse mesmo ano dá entrada num hospício em Zurique, onde é objecto de variados estudos, na tentativa de desprender a sua alma da apoteose do distorcido onde não pode mais representar. Nijinsky tinha apenas 30 anos de idade. Daí para a frente permanece fechado, numa clausura que dura outros trinta anos e da qual ninguém fala, mas para a qual eu me debruço com uma enorme vénia, dando-lhe tanta importância como a outra metade da sua existência. Viria a falecer em Londres em 1950. A legenda da última foto [em cima à esquerda] diz:

“Nijinsky, as primeiras imagens do bailarino mais afamado do mundo no seu retiro campestre perto de Londres. Vaslav Nijinsky, 58 anos, de cabelo branco e atarracado, aparentemente recuperado da doença mental que o afectou durante anos e que o impediu de continuar a sua grandiosa carreira, planeia agora o seu futuro. Pretende criar o World Theatre for Ballet ligando-o possivelmente a uma Universidade em Inglaterra ou nos EUA. Um milhão de libras serão necessárias para a envergadura do projecto, mas passos claros foram já dados para mover as rodas que levarão à realização deste seu sonho.”

Nijinsky morreria dois anos depois sem o concretizar. Esta sua última aparição veio completar a lenda do homem a quem o mundo nomeara como “deus da dança”, e que a dimensão da sua apoteose distorceu numa modificação profunda da sua personalidade. Numa palavra inteira e obtusa. Sem retorno. Híbrida. O de ser um Homem à altura. A altura de Deus misturado com o Diabo. Para o qual não existe um termo. Não existe fim. Porque Ele estará sempre aqui.

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2 Comments

  1. AntoninF added these meaningful words on October 25, 2009 | Permalink

    “Destilada em testemunhos embevecidos em cascos de orvalho”, e achas tu que tens jeito para escrever, é? Que quer dizer isso?

  2. Ana added these meaningful words on October 30, 2009 | Permalink

    Lindo, o Nijinsky. Obrigada pelo texto. Muito bom.

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  • Fingo

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  • 04.Jun
  • Toshiba Zoom XR324Y
  • Dionísio, o Exíguo (ou seja Dionísio o Menor, significando o Humilde), foi um monge do século VI, nascido na Cítia Menor (c. 470), no que é actualmente a região de Dobruja, Roménia, membro da chamada comunidade dos monges da Cítia em Roma. Versado em matemática e em astronomia, celebrizou-se pela criação de um conjunto de tabelas para calcular a data da Páscoa, levando à introdução do conceito de anno Domini, o ano do Senhor.

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  • 19.Feb
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  • 21.Oct
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  • 18.Jun
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  • 26.May
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  • 30.Apr
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  • Velox Vehemens

  • 26.May
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  • 13.May
  • Nature boy
  • «Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a indelicadeza de o ter ursupado previamente. Os nossos nadas pouco diferem; é vulgar e fortuita a cicunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios e eu o seu redactor.»
    Jorge Luis Borges
    [nota em Fervor de Buenos Aires]

  • 13.May
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  • 07.Dec
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  • 06.Nov
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  • Rudimentum

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  • 03.Sep
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  • Conrad foi educado na Polónia ocupada pela Rússia. O seu pai, um aristocrata empobrecido de Nałęcz, foi escritor e militante armado, sendo preso pelas suas actividades contra os ocupantes russos e condenado a trabalhos forçados na Sibéria. Pouco depois, a sua mãe morreu de tuberculose no exílio, e quatro anos mais tarde também o seu pai, apesar de ter sido autorizado a voltar a Cracóvia.

  • 09.Jul
  • Amanhã submerso
  • Os casos de polícias são verdadeiramente casos que envolvem uma organização de termos e burocracias, de formalidades, mas que formam em todo o seu novelo uma intenção. A vontade de desvendar o caso ou a de o levar ao esquecimento, para que desapareça dos olhos da sociedade e se iliba em nome de uma memória colectiva dissipante. Está sempre a acontecer.

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  • 29.May
  • Talvez e só uma lenda… sem legendas
  • Luís Amorim morreu aos 17 anos. O Vitor Silva anos antes, também jovem, em pleno dia, também foi , igualmente sem justiça. Ambos eram portugueses. Mas não importa a nacionalidade, o que importa é que ninguém, ou quase ninguém, fez nada para tentar apurar a verdade que por vezes vive muito distante da realidade. Na terra onde tudo parece ser a brincar e estar fora do sítio ou ser a faixa errada de um disco riscado. E quantos mais ocuparam a mesma cadeira dos quais nunca se ouviu falar?

  • Poematis

  • 02.Mar
  • Women, Wine and Snuff
  • John Keats was the latest born of the great Romantic poets, following Byron and Shelley. During his short life, his work was not well received by critics, but his posthumous influence on next generating poets was impressive. The poetry of Keats was characterised by sensual imagery and tempest desires. He died in Rome when he was twenty five.

  • 21.Feb
  • Pelos gritos
  • O solo a dez metros de outro solo. Que treme à passagem do rodado. Alcatrão, ferro, coisas armadas. O uivo de um novo bicho que rasga o pequeno horizonte. Solavancos. O redor tempestivo, das festas. E a tua mão a voar sobre elas. Por entre a minha boca aberta.

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  • 20.Dec
  • Listen
  • Now, I couldn’t believe that in this very moment, faraway or here, someone isn’t thinking about me. I don’t think about it because believing just like that, there or here, any one may think about me, or believe in that tiny moment, that is thinking about me for some other reason in which I don’t believe, even thinking the opposite, will be a hard time.

  • 03.Dec
  • Cascos de rolha
  • Não contar a ninguém. Não falar. Sobre a faixa invertida. Esquecer. Perder a lembrança. Apenas o marco abstracto, aqui. E a lonjura. Como um ponto perdido. Para voltar a um qualquer início. Não, voltar não. Ir. Por um breve instante. Ao primeiro degrau. E voar.

  • 25.Nov
  • By Roberto Bolaño
  • My muse is following me, wherever I go or trail. She’s here ever, across this long night where years go by. Not caring about one or nothing, sickness or pain. And there’s no effort she makes to be just where we are. But Bolaño tells it much better.

  • 03.Aug
  • Para sempre também
  • O Homem do Leme é uma personagem que nasceu algures. Já se foi. Um homem sem leme. Sem vela. Um homem que vai ao sabor do vento, mas sem o provar, sem poder ir com ele. Um vento que lhe diz tudo não dizendo nada.

  • Sanus & Statua

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  • 03.Apr
  • Step over my dead body
  • The Kills: Alison Mosshart was previously in Floridian punk rock band Discount, and Jamie Hince was in the British rock bands Scarfo and Blyth Power. The duo first met when Mosshart heard Hince practicing in the hotel room above hers, and when Scarfo and Discount disbanded they struck up a songwriting partnership.

  • 29.Mar
  • She’ll come, she’ll go
  • Lady Grinning Soul” is a ballad written by David Bowie, the final track on the album Aladdin Sane, released in 1973. The composer’s first meeting with American soul singer Claudia Lennear in 1972 is often cited as the inspiration for the song. One of most underrated songs quite unlike anything else Bowie has ever done.

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  • 09.Feb
  • The stitches open
  • The Dø is a French duo formed by musician and soundtrack composer Dan Levy and Finnish singer Olivia Merilahti. The name is pronounced the same as the English word “dough” and is presumably derived from the first sound of the “Do-Re-Mi.”
    Dan said in an interview on TV that the name of the band is formed with the initials of their names. The word “dø” means “die” in Danish and Norwegian.

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  • 12.Jan
  • Love yourself
  • “No Pussy Blues” is a garage rock song written by the band Grinderman. It talks about the tricks in the book to seduce a woman and sleep with her, only to be constantly rejected. When asked during an interview whether the song had a deeper meaning, Nick Cave replied “No, it’s just about not getting any pussy.”

Plurimus

Acreditamos que neste lugar tudo podemos fazer. Toda a liberdade existe por aqui. E nada mais importa.

We believe that in this place we can do everything. Freedom flows all over. And nothing else matters..

Flamma

E mais seremos se daqui pudermos ver o resto do Atlas e todo o Passado e, para além disso, uma boa parte do Futuro.

Nuntius