Denominadores mais frequentes

Este texto saiu no Hoje Macau no ano longínquo de 2004. Faz parte do pacote de notícias verídicas com uma base ficcional. Ring chama a isto Fiction News, onde se mistura no mesmo saco um cão raivoso e um gato assanhado. Aqui aparece o famoso Convencimómetro, também presente em algumas das suas histórias. Era uma época memorável esta que percorria todo o tempo do 35 de Abril.

By Ring Joid

on 15 Sep 09

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Uma renovada companhia de telefones de Hong Kong resolveu, como forma de promover os seus novos serviços, oferecer um telemóvel a todos os cidadãos do vizinho território. A campanha da Twist & Shout segue o lema “Uma Pessoa. Um Mundo.” e pretende ligar entre si toda a população numa só rede móvel com benefícios únicos. Para isso foi estabelecido um acordo com o gigante celular NOKIA que fabricou um aparelho exclusivo permitindo, para além dos serviços existentes no mercado, usar o telefone como o seu melhor amigo, o seu amante, ou mesmo um simples cartão de crédito, uma escova de dentes ou um passe para os transportes públicos. Os cinco milhões de aparelhos são equipados com uma câmara de vídeo de infra vermelhos, que possibilita ver o que não se vê, um monitor GPS e um pequeno forno micro-ondas que possibilita aquecer a comida onde “você estiver, com quem estiver™”, não falando no acesso directo a toda a rede de casinos do mundo inteiro, na qual a T&S recebe uma comissão por cada aposta. Acau incluído. Mas o melhor, a grande novidade, é que, graças a um chip desenvolvido pela IBM, o seu telefone pode falar por si, fazer as chamadas que quer fazer, gravá-las, seleccioná-las, resumi-las e, sobretudo, desligar a chamada a pessoas inconvenientes, ou quando a conversa não leva a lado nenhum. Com um investimento inicial de quinze biliões de dólares de Hong Kong – que é o valor das receitas anuais do Governo de Macau – a Twist & Shout espera em seis meses recuperar o capital aplicado, contando, para que isso aconteça, com a fidelidade de todos os habitantes no uso dos seus aparelhos. Se tem o estatuto de residente do território especial mesmo aqui ao lado, apenas terá que mostrar o seu cartão de identificação, num dos postos espalhados pela metrópole, para receber o seu aparelho. Em troca só terá que assinar um contrato anual com a renovada empresa de telecomunicações.

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Em Israel, uma multinacional belga decidiu implementar um sistema de entrega de ameaças ao domicílio. Os estafetas, equipados com coletes à prova de qualquer coisa, fornecem insultos, ditames religiosos, promessas de violência, injúrias várias e sobretudo gestos obscenos. A ideia, comparticipada pelo Ministério da Defesa israelo-árabe, define-se como uma tentativa de acabar com a violência física e armada em todas as províncias, desde a Faixa de Gaza aos Montes Golan, substituindo-a pela palavra, pela ironia, pelo humor e, principalmente, pela chalaça. Uma parvoeira, digamos. A primeira mensagem a ser enviada partiu do líder da OLP, Yasser Arafat, que, dirigindo-se ao Primeiro-ministro Ariel Sharon escreveu em yiddish “Forn kase oif dem hafung!”, o que em português corrente quer mais ou menos dizer: “Vai levar na bilha!”. Não foi, no entanto, fornecida tradução oficial. O primeiro estafeta, um palestino de origem judaica, como símbolo da união entre os povos, diálogo deculturas, bla bla bla, partiu na sua motorizada blindada com um sorriso de quem acabou de descobrir o maior tesouro do planeta. O consórcio belga espera atingir o milhão de mensagens durante o mês de Agosto.

Do Japão chega a notícia de uma join venture entre a Sony e a Philips para a comercialização de uma nova máquina à qual foi atribuída o código de Disposable Brain (Cérebro Descartável). O seu autor, um professor universitário irlandês de vinte e dois anos, Stephen Dedalus, em entrevista exclusiva ao Hoje Macau, fala da sua criação: “…eu chamo-lhe Convencimómetro, mas a partir do momento em que um produto passa para a linha de montagem perde-se por completo o controle da peça. Chegam-se os cientistas de renome, os directores de marketing, os designers e fica o caldo todo entornado. Não quer dizer que esteja chateado por não terem seguido as minhas directrizes, pagaram-me bem, por isso não preciso de me queixar gratuitamente. É necessário que as pessoas tenham em atenção que isto não é um brinquedo. Não transforma, por exemplo, um bicho numa pessoa agradável. Não é como ir ao talho e encomendar o bocado de carne que queremos comer ao jantar. Nada disso. Trata-se de uma nova filosofia de vida, que transforma o desejo numa outra espécie de realidade. Eu chamo-lhe virtualidade real. Não funciona do mesmo modo com toda a gente. Varia. É preciso calcular o pensamento. É preciso concentração. Se apontamos esta geringonça para alguém e desejamos que essa pessoa faça qualquer coisa mas ao mesmo tempo temos vontade de comer um gelado, o resultado final pode ser um acontecimento muito estranho, daqueles que faz as primeiras páginas dos jornais. Se é esse o objectivo, tudo bem. Se há necessidade de armar confusão este é o produto certo. Arma a confusão que for preciso. Mas de modo racional. Tudo o que ele faz é pensado. É um acto de consciência. Não é coisa de loucos. Se é perigoso? Hoje em dia tudo o que nos vem parar às mãos é perigoso, por isso não estou preocupado. O mundo que se ajuste à perigosidade do utensílio…”
À disposição do público vão estar dois modelos o Just That (Só Isso) e o Mission Impossible (Missão Impossível), este último, com um preço que pode rondar as vinte mil patacas, tem a capacidade, segundo o seu autor, de “convencer” todo o tipo de maquinaria, electrónica ou manual. Pode, se a força do pensamento for suficientemente forte, por excepção, persuadir uma máquina de levantar dinheiro a despejar de uma só vez todas as notas que tem lá dentro e, pelo caminho, transformar-se num símbolo de arte contemporânea, numa escultura, ou mesmo numa Deusa Amã. Os Disposable Brains estarão à venda no final do ano, mais coisa menos coisa.

Entretanto, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos da América, uma associação, sem fins realmente lucrativos, criou um programa piloto com o objectivo de reduzir a velocidade do tempo. Transformar um segundo numa hora. Dar a um dia a dimensão de uma semana. Enfiar dentro de um mês todo o tempo de um ano inteiro. As duas soluções são simples mas distintas. O primeiro grupo de trabalho estuda a possibilidade de reduzir a velocidade de rotação da Terra. Como? Unindo os dois pólos por uma circunferência metálica feita de tempestades, em roda do meridiano de Greenwich, criando de cada lado do planeta propulsões contrárias, opostas, adversas. Antagónicas. À escala, de uma bola de futebol, o objectivo foi conseguido, resta saber se na dimensão real isso será possível. O segundo grupo debate-se com uma experiência de carácter sociológico. Reduzir os hábitos do Homem ao essencial e aumentar a velocidade a que eles se processam. Fazer tudo mais depressa. Respirando mais depressa, pensar mais depressa, agir à velocidade da luz, etc. Na tentativa do próprio organismo humano metabolizar num espaço de tempo mais reduzido. Mudando-se geneticamente com o avançar das gerações. Dando-lhe a percepção que a vida se tornou, por sua vez, mais calma. O estudo faz parte de uma pesquisa da revista Science e os resultados desta pesquisa podem ser lidos na edição do mês de Setembro.

Ao mesmo tempo, precisamente à mesma hora, na América do Sul, no estado do Paraná, um grupo de crianças, cansadas do poder paternal, resolveu instituir o que chamaram de “Normas de Comportamento para os Pais”. Numa conferência de imprensa, Joel, de dois anos de idade, o porta-voz do grupo, referiu que a ideia é controlar as disposições adquiridas que os adultos normalmente têm, neste caso os pais. Essas doenças. A criança explicou com convicção, enquanto lambia um chupa-chupa, que hoje em dia os pais já não mandam em nada, que se os filhos já por si decidem tudo o que se passa lá em casa, ao menos que se assumam e se criem normas. Para quem pode desligar a televisão primeiro, para quem pode fazer barulho, para quem pode dormir mais tempo, para quem pode acabar com o gelado que está no congelador. Coisas muito importantes para a sociedade, referiu Joel. O manual ilustrado está à venda em todas as livrarias e foi traduzido para meia dúzia de línguas. De entre as quais o chinês.

Em Portugal. O novo Primeiro-ministro ofereceu ao governo guatemalteco o ouro que resta nos cofres do estado para a aquisição das ruínas maias de Kaminaljuyú. O fundamento da transacção é transladar, pedra por pedra, todo o complexo arqueológico para um aterro a ser criado no rio Tejo, onde será criada a nova sede do governo. Diz o antigo Presidente da Câmara de Lisboa, agora chefe de estado, que é um projecto para quinze anos. Um projecto para dar uma dimensão milenar ao país. Para não se estar sempre a falar de caravelas, de descobrimentos, do Sancho Pança (sic) e do Vasco Santana. Para finalizar, em frente às câmaras de televisão, o novo chefe do governo disse: “Chapéus há muitos, seus palermas!”, ficou por saber a quem é que ele se estava a referir, se ao mundo em geral, se aos portugueses em particular.

[Publicado no Jornal Hoje Macau no dia 6 de Agosto de 2004]
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