Por vezes dizer não é apenas só isso. É estar a intrometer. É estar a entrar pelo portão de uma quinta. Alheia. E a cometer um engano, como se os enganos se pudessem cometer. É ingénuo, dizer. Porque o dizer não existe, existe o que está lá atrás, o que está nas traseiras. Existe a ideia. Aquilo que na verdade nos move e que não queremos admitir, nem para nós próprios. Não estamos a dizer, estamos a atalhar. A ludibriar o outro com as costas da mão. O verso da carta. Diz. Diz. Diz a verdade logo à primeira. Admite que estás a omitir, que queres intrometer-te, entrando pelo portão desssa quinta e ursurpar um pouco de terreno. Ou quanto mais não seja saltar para cima de uma árvore e roubar uma peça de fruta. Uma nêspera. Ou um animal rasteiro. Uma flor, a sola de um sapato. Diz, não te inibas. Atira com esse mundo todo ao ar e arremessa-lhes com os restos na cara. O seres dúbio, sacana, mentiroso. Diz-lhes que és um traste, que és um sacana, que és mentiroso. Diz-lhes, se és capaz. Sempre estou para ver se és capaz ou não. Não és, de certeza. Vais levantar o dedinho, olhar para todos os lados, sem interromper, e falar numa voz mansinha como se quisesses tocar à campainha e fazer apenas umas festas ao animal de estimação, que nem se encontra lá porque adivinhou que estavas para vir. Esfregar os sapatos no tapete da entrada e finalmente pedir uma peça de fruta: “Descascada, se faz favor.” E depois sim, acabada a imaginação, esperar que te abram o portão da quinta. É tudo isso o que te faz pensar. Pensar que sabes o que estás a dizer.
Em cheio
Abrir a boca. Pensar que se abre a boca. Para falar. Para largar um pensamento que ficou a meio do caminho e se esqueceu. Ficou ali. Como uma barreira. Ou um insecto. Que não cabe mais. Não entra nem sai. É preciso vomitá-lo cá para fora.

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