Viagem para lá

A amizade não escolhe distâncias. Vive para além disso. Vive para além do tempo. É imortal e verdadeira. Nada é mais verdadeiro do que sentir que existe alguém que, como nós, está aqui a bater dentro do peito.

By Ring Joid

on 10 Aug 09

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Purple já não via Lime há uma série de tempo. Estivera fora uns meses e deambulara depois quando regressou. Até que se encontram de novo, sem motivo aparente.
- Lime? – estava irreconhecível.
- Purple, há quanto tempo! – talvez um pouco envergonhado.
- És mesmo tu!? Que te aconteceu? – olhando-o de mais perto.
- Nada de especial, trabalho agora para uma empresa de marketing. – de todo indeciso.
- A sério? Esse aspecto é para atrair alguém? Não me parece.
- Não é bem isso. Disseram-me para rapar o cabelo. Para deixar crescer a barba. E que depois fosse falar com eles. - diz isto indiferente, observando o ar aberto por cima.
- Então ainda não estás a trabalhar, estás em fase de testes, é isso? – o céu começava a ficar escuro.
- Não sei, talvez seja. Disseram-me para deixar crescer esta barba. Assim como nesta fotografia, vês? Só que eu já lhes disse que a minha barba não cresce mais do que isto. Fui lá uma vez e eles viram. Chega a este estado e não passa daqui, mesmo que espere cem anos. Depois tem este aspecto grisalho. Não me safo. – Lime não estava garantido.
- Pois não. Está horrível. Estás um verdadeiro monstro. Tu que até tinhas um ar apresentável. Tinhas o teu estilo. As raparigas olhavam para ti. Nem sei o que pareces agora. Um alien!
- Achas? Não tenho reparado muito em mim. Apalpo o queixo de manhã, para ver como isto vai, mas não me olho ao espelho muitas vezes. Tenho andado distraído a pensar noutras coisas. Está assim tão mau?
- Nem te digo. Talvez sejas o homem mais feio do mundo, afinal, e eu nunca tinha pensado nisso.
- É, o cabelo faz-me falta. A minha cabeça tem uma forma terrível. Oblonga. Depois com estas cicatrizes de quando era pequeno, não ajuda. E repara, agora estão a crescer-me estas protuberâncias aqui de lado. Vê lá.
Purple faz uma festa na cabeça do amigo, como que a dar-lhe alento.
- Sim, parecem dois pequenos chifres. Que é isto? São exactamente simétricos. Incrível.
- Não sei. A semana passada não estavam aí. Acho que isso é que entornou o copo. E eles à espera de um Guru. – e olha de relance para a fotografia, o homem careca com uma barba até ao peito, com uma certa nostalgia a acariciar-lhe o rosto. – Assim não vou mesmo lá. Acho que não vou arranjar este emprego. E com a crise que para aí anda. Vida difícil, Purple, vida difícil… – e os seus dois indicadores esfregam circularmente esses pequenos montículos. Como que a aliviar uma dor sem sentido. Ou a memória de um futuro que terminou ali.
- Não vais não. Estou a ver que não posso estar muito tempo sem te ver. Sem estar por perto. Mas deixa lá o Guru. Esquece isso e vem comigo. Vamos beber umas cervejas. Qualquer coisa. Amanhã isso já está melhor.
- Estava na verdade com saudades tuas. Contigo sinto outra confiança. De outra maneira perco-me e digo que sim a tudo. Fico vulnerável, abusam de mim.
E nisto entram no Barbeiro. Um Barbeiro com Café. Com tosquia. Com remoção de quistos. Conselho sentimental e Internet. Isso tudo num só.

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One Comment

  1. João Vs added these meaningful words on October 22, 2009 | Permalink

    Muito bom este Lime & Purple. Continua. Quero mais!

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  • Fingo

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  • 04.Jun
  • Toshiba Zoom XR324Y
  • Dionísio, o Exíguo (ou seja Dionísio o Menor, significando o Humilde), foi um monge do século VI, nascido na Cítia Menor (c. 470), no que é actualmente a região de Dobruja, Roménia, membro da chamada comunidade dos monges da Cítia em Roma. Versado em matemática e em astronomia, celebrizou-se pela criação de um conjunto de tabelas para calcular a data da Páscoa, levando à introdução do conceito de anno Domini, o ano do Senhor.

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  • 19.Feb
  • A descoser os lábios de uma ferida
  • Tempo morto. Tempo para usar. A espera por tudo aquilo que faz falta. A exactidão. Um tempo sem sombra, por preencher. E quantos dias mais. Quantas brasas por queimar. Mornas a precisar de chama. Sempre a vontade e a sintonia no mesmo pranto. E agora, dizes tu. E agora?

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  • 21.Oct
  • Velouria
  • Nunca se começa uma história com a frase “Ia no meu BMW”, toda a gente sabe disso. Mas isto não é literatura. Isto não é nada. É apenas uma aversão. Aversão a uma vida. São os fios entrelaçados, quase sempre trocados e sem cor definida. A matéria cinzenta, os remoinhos, as suposições, os choques, de alguém profundamente desconcertado. Por isso, é assim que este texto começa. Por aí, em roda livre. Mas não se diz, salta-se para o lado de fora. Para o esquecimento.

  • Fabulaz

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  • 18.Jun
  • Romance histórico
  • Esta é uma história perdida, que foi ficando na gaveta e que moveu outras vontades. Os nomes eram outros. Mas os nomes não tinham importância afinal, por pertencerem a gente pequenina. Agora tudo se levante e chega como novo.

  • 26.May
  • Língua portuguesa
  • Diz-se para se ouvir. Mas em certos modos, épocas, construções químicas, esse processo não se realiza. Existe apenas a sensação. O desejo. O sabor daquilo que não se explica por palavras. E como tal, não pelo dizer ou pelo ouvir. Os olhos fecham-se e um sentido contundente do que somos, e que se reflecte num outro ser, ataca-nos sem mais lembrança. Sem mais representação. E tudo isso é um transporte para uma felicidade em pleno. Uma espécie em vias de extinção.

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  • 30.Apr
  • Olhar para um palácio
  • A História mesmo por becos e veredas merece sempre ser contada. Cheguei ao território de Macau há demasiado tempo. Tudo passou de repente. As caras, os factos, as viagens. O que resta é o quotidiano, que se repete a cada minuto, incessante, com a mesma cadência. Como um rosto que se adivinha com a teimosia de quem olha sempre para um palácio.

  • 26.Apr
  • Venho apenas dizer-te adeus
  • Matusalém, personagem bíblico do Antigo Testamento, que teria sido filho de Enoque e o avô de Noé, é geralmente conhecido por ser a personagem com mais idade de toda a Bíblia, tendo vivido 969 anos, sendo que o ano de sua morte coincidiria com a ocasião do dilúvio, o que é apenas um cálculo aritmético já que o dilúvio ocorreu quando Noé tinha 600 anos. No livro apócrifo de Enoque, Matusalém vai pedir explicações ao seu pai devido ao facto de lhe ter nascido um neto estranho e diferente de todos o que havia visto até então.

  • Velox Vehemens

  • 26.May
  • Dezoitorizante
  • O tempo nem sempre corre como devia correr. Por vezes escapa-se para acontecimento incerto. Algures no passado ou no futuro. E o que fica é uma brisa. Um estalar de dentes. Um sorriso. Um eco. De uma coisa que já se foi. Há muito tempo. É mais um pequeno momento de Lime e o seu inseparável Purple.

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  • 13.May
  • Nature boy
  • «Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a indelicadeza de o ter ursupado previamente. Os nossos nadas pouco diferem; é vulgar e fortuita a cicunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios e eu o seu redactor.»
    Jorge Luis Borges
    [nota em Fervor de Buenos Aires]

  • 13.May
  • Moço de recados
  • Queres dizer alguma coisa, mas não sabes como, por isso inventas, inventas largo, e dizes o que não deves dizer, porque na verdade não sabes falar, sabes sentir, sim, sentes à tua maneira, mas não sabes falar, não sabes contar, balbucias, depois ninguém te pode aparar e aí é que são elas!

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  • 07.Dec
  • Odeia quando falho
  • Vai ser em Junho. O dia está marcado. Do próximo ano. É aí que tudo vai acontecer. Ou do outro ano. Que o mundo vai recomeçar. Sem enganos. Em vez de acabar. Ou do seguinte. Os dias limpos. Mais tarde. As serras verdes e a brilhar. O dia do nascimento. Ou para sempre. O dia em que morreu.

  • 06.Nov
  • O urso maior
  • Há sempre uma esperança. Em guarda. Não tão vã como isso. De uma plenitude sem retorno. Que nos espreita. Que nos vigia. Que nos alimenta o espírito. Como uma luz apagada.

  • Rudimentum

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  • 03.Sep
  • Até logo
  • Conrad foi educado na Polónia ocupada pela Rússia. O seu pai, um aristocrata empobrecido de Nałęcz, foi escritor e militante armado, sendo preso pelas suas actividades contra os ocupantes russos e condenado a trabalhos forçados na Sibéria. Pouco depois, a sua mãe morreu de tuberculose no exílio, e quatro anos mais tarde também o seu pai, apesar de ter sido autorizado a voltar a Cracóvia.

  • 09.Jul
  • Amanhã submerso
  • Os casos de polícias são verdadeiramente casos que envolvem uma organização de termos e burocracias, de formalidades, mas que formam em todo o seu novelo uma intenção. A vontade de desvendar o caso ou a de o levar ao esquecimento, para que desapareça dos olhos da sociedade e se iliba em nome de uma memória colectiva dissipante. Está sempre a acontecer.

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  • 29.May
  • Talvez e só uma lenda… sem legendas
  • Luís Amorim morreu aos 17 anos. O Vitor Silva anos antes, também jovem, em pleno dia, também foi , igualmente sem justiça. Ambos eram portugueses. Mas não importa a nacionalidade, o que importa é que ninguém, ou quase ninguém, fez nada para tentar apurar a verdade que por vezes vive muito distante da realidade. Na terra onde tudo parece ser a brincar e estar fora do sítio ou ser a faixa errada de um disco riscado. E quantos mais ocuparam a mesma cadeira dos quais nunca se ouviu falar?

  • Poematis

  • 02.Mar
  • Women, Wine and Snuff
  • John Keats was the latest born of the great Romantic poets, following Byron and Shelley. During his short life, his work was not well received by critics, but his posthumous influence on next generating poets was impressive. The poetry of Keats was characterised by sensual imagery and tempest desires. He died in Rome when he was twenty five.

  • 21.Feb
  • Pelos gritos
  • O solo a dez metros de outro solo. Que treme à passagem do rodado. Alcatrão, ferro, coisas armadas. O uivo de um novo bicho que rasga o pequeno horizonte. Solavancos. O redor tempestivo, das festas. E a tua mão a voar sobre elas. Por entre a minha boca aberta.

  • <?php the_title(); ?>
  • 20.Dec
  • Listen
  • Now, I couldn’t believe that in this very moment, faraway or here, someone isn’t thinking about me. I don’t think about it because believing just like that, there or here, any one may think about me, or believe in that tiny moment, that is thinking about me for some other reason in which I don’t believe, even thinking the opposite, will be a hard time.

  • 03.Dec
  • Cascos de rolha
  • Não contar a ninguém. Não falar. Sobre a faixa invertida. Esquecer. Perder a lembrança. Apenas o marco abstracto, aqui. E a lonjura. Como um ponto perdido. Para voltar a um qualquer início. Não, voltar não. Ir. Por um breve instante. Ao primeiro degrau. E voar.

  • 25.Nov
  • By Roberto Bolaño
  • My muse is following me, wherever I go or trail. She’s here ever, across this long night where years go by. Not caring about one or nothing, sickness or pain. And there’s no effort she makes to be just where we are. But Bolaño tells it much better.

  • 03.Aug
  • Para sempre também
  • O Homem do Leme é uma personagem que nasceu algures. Já se foi. Um homem sem leme. Sem vela. Um homem que vai ao sabor do vento, mas sem o provar, sem poder ir com ele. Um vento que lhe diz tudo não dizendo nada.

  • Sanus & Statua

  • <?php the_title(); ?>
  • 03.Apr
  • Step over my dead body
  • The Kills: Alison Mosshart was previously in Floridian punk rock band Discount, and Jamie Hince was in the British rock bands Scarfo and Blyth Power. The duo first met when Mosshart heard Hince practicing in the hotel room above hers, and when Scarfo and Discount disbanded they struck up a songwriting partnership.

  • 29.Mar
  • She’ll come, she’ll go
  • Lady Grinning Soul” is a ballad written by David Bowie, the final track on the album Aladdin Sane, released in 1973. The composer’s first meeting with American soul singer Claudia Lennear in 1972 is often cited as the inspiration for the song. One of most underrated songs quite unlike anything else Bowie has ever done.

  • <?php the_title(); ?>
  • 09.Feb
  • The stitches open
  • The Dø is a French duo formed by musician and soundtrack composer Dan Levy and Finnish singer Olivia Merilahti. The name is pronounced the same as the English word “dough” and is presumably derived from the first sound of the “Do-Re-Mi.”
    Dan said in an interview on TV that the name of the band is formed with the initials of their names. The word “dø” means “die” in Danish and Norwegian.

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  • 12.Jan
  • Love yourself
  • “No Pussy Blues” is a garage rock song written by the band Grinderman. It talks about the tricks in the book to seduce a woman and sleep with her, only to be constantly rejected. When asked during an interview whether the song had a deeper meaning, Nick Cave replied “No, it’s just about not getting any pussy.”

Plurimus

Acreditamos que neste lugar tudo podemos fazer. Toda a liberdade existe por aqui. E nada mais importa.

We believe that in this place we can do everything. Freedom flows all over. And nothing else matters..

Flamma

E mais seremos se daqui pudermos ver o resto do Atlas e todo o Passado e, para além disso, uma boa parte do Futuro.

Nuntius