A primeira coisa que penso quando parto é: “É a última vez que faço isto, é a última vez que parto!”
Não por ser difícil ir, não, isso até não custa nada. É o contrário. Uma dor que fica em terra, uma porcaria de desejo de nunca mais querer voltar, mesmo assim, ir com a roupa que se tem no corpo e nunca mais pôr os pés no sítio que se acabou de deixar, que na verdade não me diz coisa alguma. Desaparecer. Sem olhar para trás. Nada mais importa.
A segunda coisa que se pensa é: “Mas voltar para quê? Para quem?”
Nada é meu. É tudo uma ilusão. Pequena, grande, infinita, é tudo a puta de uma ilusão, que não serve para nada. Qualquer que seja o seu tamanho o valor é o mesmo, vale aquilo que vale e a razão vive fora disso tudo. Tudo de uma pequenez disforme.
São as ondas do mar logo a começar. O balanço para o lado errado. O barco a querer entreter-me sem ter sorte nenhuma. Que é mais? Sou eu, é isso, sou eu. A hora errada. O lugar errado. E mesmo assim, cada vez que vou é como se tivesse a ser desenterrado. Ainda com a terra a cobrir-me parte da visão. Os braços mortiços, o andar inseguro. Umas raízes que começavam a entrar pela sola dos sapatos e que se desprenderam com uma indiferença brutal. E toda aquela gente de braço no ar a despedir-se, a dizer, no fundo das suas almas, “vai e nunca mais apareças.”
E eu vou e o mais certo é aparecer, mas mesmo que me vejam e mesmo que lá esteja é como se o meu estatuto fosse como o papel de um jornal, coisa velha, reciclada, morna, que no dia seguinte já ninguém se lembra. E nem é do que lá tinha escrito. É mesmo esse suporte escurioso, que não serve para nada.
E o que penso no final é: “Puta de terra, não tenho mesmo nada a ver com isto!”
Depois disto, apago a luz e viro-me para o outro lado.
Águas turvas
Há horas para partir. Horas para chegar. Sítios que se deixam. Outros que nos recebem. Qual a lógica disto tudo? Quem é que manda afinal neste acto de dar e receber?














One Comment
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