Vim a correr com a alma a fugir-me, para aqui. Lá fora estão três polícias, ou mais, que me querem levar. Levar-me para a esquadra ou outro lugar recôndito. Dizem que me ouviram falar, a dizer coisas feias, a pensar coisas más, a escrever barbaridades. Cheguei ao gabinete e escondi-me. Fechei-lhes a porta na cara, e penso que não ficaram nada contentes. Vinham armados com caçadeiras de três canos, prateadas. Pareciam espingardas de brincar, mas a sério. Todas as munições a ferverem lá dentro, a quererem saltar cá para fora. Quando subi, galgando cinco ou seis degraus de cada vez, ouvi cães ao fundo, e sirenes, como nos filmes. Querem levar-me. Preso ou mais do que isso. Como um escravo que se escapou do capataz. Escrevi coisas feias? Sim, pensei o que não devia, disse mal deles, e criei motins em muitos cérebros alheios. A culpa não é minha. É, de todo, deles. Agora querem fechar o edifício, a cadeado. Há quem lhes chame aloquetes, aos cadeados. Eu não. Vêm também estudantes, em protesto, com as suas boinas de várzea, em gritos lacinantes, que me ferem as guelras. Talvez para me proteger. Um peixe fora do aquário, eu. E o aquário já é uma solução alternativa. Escrevo mal, escrevo barbaridades, sim, têm toda a razão. Carros de bombeiros. Ambulâncias. Provavelmente algum Ministro se avizinha, já lhe sinto o cheiro. Um senso enjoativo, de cobiça. Ao fundo, mesmo lá ao fundo. Jornalistas, aos pontapés. Ai! As luzes, os microfones, os rádio-transmissores. Os satélites. Polícias de choque. Para arrombar com os estudantes. E os de Mangualde. Os de Castro Marim. Também vieram. Um ou dois da Ilha Terceira, mais arreados. A chatear os pombos da praça. Numa algazarra da qual já não há memória. A memória de ninguém. Vejo também mulheres, da minha janela. Lindas, outras já de idade. Bonitas à mesma. Dentro dos eléctricos que passam lá ao canto, dezenas de executivos, encapuçados, com a sua personalidade estrita. Não quero acreditar. Multinacionais. Escriturários. Mulheres-a-dias. Com cartazes coloridos. Não. Ninguém me vai apanhar, não vou sair daqui. Nem para a hora de almoço, nem pela sombra. Como qualquer coisa que haja para aí e depois logo se vê. Digo coisas feias. É verdade.
Sociedade protectora
O dia corre. Nasce o Sol, as horas, os minutos, os segundos. Depois disso, manhã solta. O chiar dos carros. A cidade aberta, toda em carne viva. Os seus habitantes numa franja de vida. E alguém que corre, de um lado para o outro.













