Está sempre sol em Biarritz. Aqui nem por isso.
– João, tu tens de mudar de atitude!
– Espera! Antes que te adiantes e digas mais qualquer coisa, não me podes chamar “João”!
– Não posso? Porquê?
– Porque “João” era a personagem da história da semana passada. Não podes estar a repetir-te. Os leitores não gostam.
– Leitores? Não sei. Não tenho nada a ver com isso. Que posso eu fazer? Não estava cá na semana passada. Não é esse o teu nome?
– O meu nome? O que eu sei é que não me podes chamar “João”, pelo menos isso não pode acontecer. Aqui. Agora. É uma das poucas coisas de que tenho a certeza.
– Está bem, posso não te chamar esse nome, mas não sou eu que mando nisto, nesta coisa da escrita. Nem sou eu que escrevo as histórias de Sexta-feira. Estamos só os dois aqui, a falar, e se queres saber sempre pensei que te chamavas “João”.
– Isso nem é relevante, posso ter centenas de nomes, mas todos menos esse, digo-te que não fica bem e, já agora, ninguém te mandou pensar, não nos pagam para isso. Mas já que estás nesse exercício, já pensaste quem é que nós somos, o que estamos aqui a fazer, como viemos cá parar? Diz-me, como viemos aqui parar?
– Não estou a perceber onde queres chegar. Aqui, onde? Que eu saiba nascemos como todas as pessoas. Depois disso tivemos uma infância e uma adolescência, estudámos numa escola e fizemos uma data de asneiras para podermos chegar até aqui. Foi assim que aconteceu. Se tu sabes dessas histórias dos meus nomes, eu sei disso.
– Tens a certeza? Achas mesmo que estiveste na escola, lembras-te disso? Consegues lembrar-te das raparigas da tua turma? Não tens cara de quem por uma vez tenha estudado alguma coisa. Cá para mim mal sabes ler. Soletras apenas, com dificuldade, e já é uma sorte.
– Claro que sei! E a escrever também me safo muito bem. As raparigas da minha turma tinham os nomes mais bonitos que se podem imaginar, esses não os conheces tu. Eram três. A minha escola ficava no cimo de uma colina cheia de árvores em seu redor. Um telheiro carregado de flores sempre a despertar com vida. Mais ao fundo, a descer, existia um grande relvado onde jogávamos à bola. Foi o único campo de futebol inclinado que alguma vez existiu no nosso país. Era impressionante, andarmos a correr para baixo e para cima. A baliza no topo era muito maior e isso equilibrava todo o desnível. A proporção foi averiguada pelo professor de Matemática do último ano. Matematicamente era um campo como todos os outros, na realidade era muito diferente, como tudo na vida.
– É isso, podes sempre imaginar o que quiseres. O passado fica tão perto da imaginação que a memória o esquece de imediato, criando em seu lugar a semelhança de muitas outras experiências. Depois sabemos lá, o que é e o que não é. Mas não te enganes, nós não existimos!
– Desculpa, se não existíssemos achas que estávamos aqui a perder tempo com esta conversa?
– Estás só a empatar. Estás a desperdiçar o teu tempo. A desperdiçar o que poderia ser um grande texto de ficção, porto-riquenho, por exemplo. Ocupas este espaço e com isso fazes com que as pessoas que nos conseguem ouvir percam tempo precioso das suas vidas. Isso não é muito agradável, devia haver uma advertência a sinalizá-lo, um livro de reclamações. Ou pelo menos um sinal a dizer: “Cuidado! Isto chateia!”
– Não há nada disso. Mas só nos ouvem porque querem, ninguém os obriga. São curiosas, estão mortinhas por um segredo. Não são capazes de perder uma. Ouvem para contar. Levam-nos. E como tu dizes, passamos a fazer parte do seu passado. Um dia vão sonhar connosco e quando acordarem ainda se lembram de nós e acabam por reconhecer as nossas caras se nos virem passar na rua.
– Parece que ainda não percebeste – ou não queres! – não vês que aqui não há ruas? Não há campos de futebol! Aqui só há espaço em branco, nem é papel. Muito espaço! E as palavras onde conseguimos existir. Só isso.
– A sério? Então e Biarritz?
– Não me perguntes. Também não sei. Não faço a mínima ideia. Não imagino qual seja o propósito.
– E quem é que sabe?
– Não me perguntes! Já disse que não sei. Pergunta-me pelo narrador se quiseres.
– Biarritz, Biarritz… Biarritz?
– Sim, fica no sul de França. Uma estância turística de velhotas e trintonas à pesca de um marido rico. E não acredito que lá esteja sempre sol.
– Não deve estar, não. Também nunca fui ao sul de França. Mas não se diz Biarritz do Oriente?
– Não! Diz-se Las Vegas da Ásia e Mónaco do Oriente. Biarritz… nunca ouvi. O mais perto disso será talvez Kota Kinabalu das Terras do Tio Sam.
– Mas se calhar é isso… por causa do tempo… pode chamar-se Biarritz.
– O tempo?
– Sim. Foi uma ideia que me surgiu agora. Porque aqui nunca faz sol…
– Também não é verdade… o céu está limpo de vez em quando
– Por não fazer sol veio à baila Biarritz. Será? Do Sul da China?
– Pois!
– E o narrador, queres que te pergunte por ele, que tem o narrador?
– Não tem. Observa à tua volta, está aqui alguém? Estamos completamente sozinhos. Nem as raparigas da tua turma cá estão. Ainda tens o número de telefone delas?
– Só nós os dois? Sem narrador??
– Sim, sem narrador! Não serve para nada. É muito melhor assim, os narradores metem-se sempre onde não são chamados, falam demasiado, contam tudo, dão com a língua nos dentes, não guardam segredos. Têm a mania de estar em toda a parte. É incrível. Mas nomes bonitos? Eram bonitas também, as raparigas da tua escola?
– Não me lembro. Na altura estava mais virado para nomes. Fazia listas. Sinceramente não me lembro das caras delas. Eram bonitas sim, muito bonitas. Mas diz-me, o que se faz sem narrador, consegue sobreviver-se?
– Muito bem. É a independência. Ficamos mais perto de Porto Rico.
– Porto Rico, Biarritz, Kota Kinabalu. Onde isto vai… damos quase a volta ao mundo.
– É, vai em roda livre. Escrevemo-nos sozinhos – sem narrador!
- Fenomenal, não é? É como conduzir sem travões. Aceleramos e vamos bater nas árvores da colina da tua escola, com a velocidade até partimos as janelas todas. Prego a fundo e estendemo-nos nas flores do telheiro. Rebolamos pelo campo de futebol abaixo. Com um bocado de sorte até vamos acompanhados. Pelo professor de matemática do último ano entretido ainda a fazer as suas contas. Sempre na dúvida. Golo! Raparigas é que nem vê-las. Está mal! Não é? Está mal. Não tens de certeza o telefone de alguma delas?
– Não! Se aqui existissem números de telefone telefonava ao narrador para me tirar daqui para fora. Mas antes que me esqueça, porque já estou farto disto, diz-me, quem era o João da semana passada? Porque raio não te posso chamar João, é assim tão importante?
– Não, nem chega a ser importante. Coitado, era um pobre coitado com alguns problemas cardíacos. A mulher também não era muito esperta, ou os dois não tinham sorte nenhuma, andavam à procura do Everest, mas o mais perto que conseguiram chegar foi do congelador. Não é por causa da história, é porque acho mal estares a repetir-te. Perde-se a vitalidade.
– Não sou eu que mando, já te disse. Se não gostas de João, ou se não pode ser, que nome queres que te chame? Qual é o teu nome afinal?
– Gervásio! Chama-me Gervásio, é o meu nome preferido. Não o conseguias imaginar nem que tentasses. Nem que fosses à procura dele em Lanzarote do País do Sol Nascente.
– Está bem. Gervásio! Tu é que sabes. Afinal és tu que mandas, descobri agora. Não há sol em Biarritz do Sul da China, pois não?
– Nem por isso.
– Gervásio!?
– Sim?
– Tens de mudar de atitude!
[NE: mudar o nome de Gervásio por outro qualquer ainda pior]

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