Não foi há muito tempo que estive no país dos Himalaias. Dois, três anos no máximo. É uma viagem que agora me custa recordar e que preferia deixá-la a residir numa viela da minha memória, em absoluto descanso. Mas apanharam-me distraído e fizeram-me escrever esta carta, e enquanto não disser tudo o que sei sobre esse país, o mais alto do mundo, não me deixam sair daqui. Está ainda luz lá fora. Vamos no segundo dia. Já me interrogaram várias vezes e não me deixaram dormir, já falei para um gravador preto de bobines, não sabia que ainda existiam, mas como prova maior, pediram-me com certo jeito, porque acharam que tinha vontade disso, para passar tudo para o papel. Assim posso ter mais tempo e pensar por mim, sem interferências. É um alívio mudar a figura do meu interlocutor para esta face branca de uma folha ainda vazia.
E a viela depressa se torna uma estrada comprida. Cheia de congestão.
Entrei pela montanha, de noite, por terra de ninguém. Passo a passo, hora a hora. Um caminho esconso e estreito que descobri aos apalpões por entre as pernas da pessoa que me acompanhava. Como uma sombra. Com o precário aulido dos coiotes a rasgar a mudez da imaginação. O que tínhamos combinado era que ficaria sozinho quando tivéssemos passado para o outro lado. A partir desse ponto teria de continuar por minha designação e compreender que o que me acompanhava não podia ir mais além.
“Já chegámos!”, disse. E sem mais desapareceu nos restos do crepúsculo.
A luz vinha do levante ainda meio negra da indolência. Nesse ápice os meus pés chegaram ao planalto e aí senti a presença de todo o jugo da descoberta ainda por andar. Um sabor de salvação pela frente que me aturdia, como o sabor do mar, todo ele igual. Inerte com a chama que trazia cá dentro a tecer-me como um dilúvio. Sabia que desde o início tinha partido só. Não me tinha cruzado com ninguém nem me guiava algum companheiro. A outra pessoa não era mais do que um pedaço de mim a desagregar-se. Uma casca da minha árvore. A pele da minha cobra. Até me deixar completo. Vazio. E aos poucos a tornar-me uma ilusão. Quanto mais tinha a certeza disso mais me achava perdido. Quanto mais aprendia menos sabedoria conservava.
Tinha ido à procura de um mecanismo que não encontrava nas cidades e na convivência com os homens. Achava que se andasse muito por uma terra desconhecida isso seria o melhor método para me conservar. Desperto. Lúcido. E de poder provar o meu mar. Não tinha um mapa, não tinha qualquer coordenada.
Quando cheguei à primeira povoação e comecei a ver gente, a cor da terra, os odores, a vegetação, tudo isso me parecia algo habitual. Nunca ali tinha estado. As pessoas olhavam para mim com reverência e sorriam, como se me conhecessem. Mas tudo se passava discretamente. Deixavam-me passar, abriam alas. Não digo que me fizessem vénias, mas por vezes demoravam-se demasiado a avaliar-me os traços, com os olhos arregalados e com a cabeça a pender para um dos lados. Falavam também, muito entre eles. Palavras que ignorava, mas que a pouco e pouco, e com sobressalto, comecei a assimilar, quase como um instinto.
Um deles, alto, magro, pouco vestido, começou a andar atrás de mim. Seguia-me de longe como um abutre a repetir os meus passos, como se a cada um deles fizesse uma pequena descoberta. E não demorou até se afundar pelo diálogo.
“Eles dizem que tu és a reincarnação do Buda.” Disse aquilo no seu linguajar estranho mas que naquela altura me pareceu claro, como a água que ainda não passou por lugar algum.
“E como é que eles sabem?”
“Não se sabe,” respondeu-me, de olhos postos na terra quente, que se movia com a esperança do fim da tarde. “Não é preciso saber. A luz…”, persistiu, já com o rosto a cobrir-me o horizonte, “não é preciso saber-se que é clara, porque é. Como o escuro, como o frio. O credo de um rio. O espreguiçar de um gato. Tudo isso são evidências.” Continuou a falar tempos e tempos afins, posso dizer com toda a exactidão, durante um número infinito de horas. A eternidade. No fim de cada frase o seu sorriso pendia para cada um dos lados e com ele balançava toda a natureza. As árvores, as nuvens, os insectos. E o chão quase que me escorregava dos pés num exercício de ordenação sem sentido. Por fim olhava-me como se fosse da sua linhagem e tudo aquilo a maior das certezas.
Fazê-lo compreender que isso era impossível foi uma tarefa à qual não me impus. Se olharem bem para mim, tenho tudo menos cara de Buda. Tenha ele a cara que tiver. E sou tudo o que o Buda não poderia ser e que excluía da sua erudição. Lascivo, carnal, ignóbil. Ele era o melhor dos archeiros, o melhor cavaleiro, o conhecimento de todos os doutores. Fez frente ao demónio e às suas hostes de tigres, leões e monstros colossais enquanto meditava imóvel de braços cruzados, debaixo da árvore que nasceu com ele. Na verdade, percorria-me uma certa vontade de um dever asceta. De me enfiar num mosteiro e ficar por lá a polir os becos de tudo o que já tinha vivido, perdido por entre a força da disciplina. Mas essa também não era a lei do Buda, que morreu rodeado dos seus discípulos em casa de um ferreiro.
“Onde estão os meus ferros?”, perguntei. O que eu queria explicar era que se o Buda tinha morrido em casa de ferreiros eu, na sua reincarnação, devia prolongar-me por esse lugar. Como se fosse uma mistura da transcendência do espaço e da metafísica do corpo humano.
E digo-lhe também: “Só há um Buda!”, já bastante chateado com toda aquela fleuma.
Mas às tantas era eu que me punha a falar. A tentar descobrir a origem e a cura de todos os sofrimentos. E os lugares enchiam-se. Enquanto me ouviam falar das instruções de segurança para uso do Karma: “Nunca aproximem o karma perto dos radiadores e nunca o usem quando não é disponibilizada a ventilação apropriada.”, isto todos sabiam, vinha escrito na posologia.
Quando as autoridades souberam da história, de imediato passaram a vigiar-me. Apareciam pequenos indivíduos com câmaras de filmar. Pediam-me os documentos. Não me deixavam ir a certos sítios. Aos jardins, a alguns templos, às sessões da meia-noite. Começaram a sugerir que me fosse embora. Ofereceram-me malas de viagem. Traveler-cheques. Limusinas. Tinham medo de um tumulto, que a paz social ruísse como uma avalanche, assim de um momento para o outro.
Quando lhes quis explicar que não era o Buda, que aquilo tudo era uma brincadeira de crianças que não tinham mais nada para fazer, já era tarde demais. Porque eles próprios, na incerteza da luz artificial dos seus gabinetes, começaram a observar-me com outro entendimento. E aí abriram o dossiê da congeminação. Queriam saber qual seria o próximo passo a tomar, passando a reunir-se com postos distintos da sociedade civil. Professores, médicos e, como não podia deixar de ser, ferreiros. Todos prontos para o fim do mundo. A revolução. Fosse ela qual fosse.
Eu sabia muito bem qual era o próximo passo. Na noite seguinte, enquanto delineavam os planos mais arrojados, peguei numa pequena motoreta, acendi um cigarro e esquivei-me dali para fora. E enquanto não voltei a encontrar o meu guia, que se vestiu de pronto por cima de mim, não fiquei satisfeito. O que eu queria ser, como Ulisses, que uma vez se chamou Ninguém, era o mais modesto e desconhecido dos homens. Nada mais.
É só o que tenho para dizer. Se quiserem torturem-me para mais, já estou por tudo. Mas aqui fecho toda a minha sabedoria acerca do país dos Himalaias. Para mim é um fragmento de um museu ao qual não pretendo regressar nunca mais. Nem que me paguem o bilhete de ingresso. Afinal não é uma viela mas um eterno salão de exposições. Perdoem-me o erro. Como uma torre. Uma ilha firme no meio das tempestades. Que existe para além de nós. Por entre as cismas da sua própria vontade e do poder que detemos, como seres humanos.
Mesmo que me façam falar não tenho mais nada para dizer. Por isso calo-me. De vez.














2 Comments
Greatings, joid.bloomland.cn – da best. Keep it going!
Pett
Hey Ring, got your message yesterday. Sorry I was at a party and couldn’t meet you there. Maybe next time. Stay cool! J.