Se há coisa que tenho feito desde que nasci, já lá vão imensos anos, e desde que ganhei a habilidade de conseguir andar e mover-me pelo próprio pé, é viajar. Reza a história, mas eu não acredito muito nisso, e acho que é apenas um mito familiar, que nasci a bordo de um Tupolev TU-134, novinho na altura. Aconteceu quando os meus pais, por vontade própria, tiveram de ser evacuados da Checoslováquia no momento em que as veias da invasão russa se alastravam pela capital e a gravidez da minha mãe, comigo lá dentro, já passava largamente para fora do prazo. Assim mesmo. Dizem que quando cheguei ao destino, na ponta Oeste da Europa, já ia todo limpinho e de chupeta na boca. As histórias que eles me contam. Para adormecer. Quanto à nacionalidade dos meus pais, é tanta a confusão com a papelada que nem vale a pena entrar por aí. Só isso dava um pequeno livro ou uma entrada para o Guinness. Mas, acima de tudo, gostava de me manter discreto. Não quero que as pessoas andem para aí a falar disto e daquilo, como se soubessem de tudo. Não. Mesmo o que vem nos jornais, não é de se acreditar. É apenas um pedaço de vidro de uma janela enorme que acabou de se estilhaçar. Isso é que é uma notícia. Dioptrias e ventoinhas. Pouco mais.
Esta história do viajar leva-me a falar, ou vem a propósito, da minha primeira viagem aos Estados Unidos da América. Foi isso que me trouxe para aqui, agora que toda a gente fala nesse país. Se por acaso tivesse corrido mal não estaria cá hoje. Às vezes não se pensa nas coisas que não acontecem e são elas que nos fazem continuar a apanhar os vidros da nossa pequena história particular, e há muitos para apanhar, mas as coisas que não acontecem são tão ou mais importantes como as que se realizam, e pelas quais nos formamos e somos conhecidos. Ou não. Um exemplo rápido. Se alguém rouba outra pessoa é imediatamente reconhecido por isso, “lá vai aquele que assaltou a G.”, mas se nunca roubou nada também, de igual modo, é considerado por não o ter feito. Como um cidadão exemplar que nunca fez mal aos seus pares. Roubar é tão importante como não roubar. Ver e não ver. Estar e não estar. E sobretudo, isto já vem de há muito tempo, não é nenhum mito familiar, é só a maior das questões da humanidade: ser e não ser. O resto já se pode adivinhar.
A América. Essa nação imensa. Andei por lá milhentas vezes, de lés a lés, a maioria das ocasiões completamente perdido, tanto no espaço como no tempo, por muitas razões que já nem sei. Mas a primeira vez que se vai é sempre a mais importante, dizem, é sempre o passo pioneiro no desconhecido. A segunda já não tem o mesmo sabor. E eu pensei logo, e toda a gente deve pensar, quando aterrei naquele país, que tinha de fazer algo de estupendo. O que se nota de imediato, disso ninguém pode fugir, é que a América é o mundo inteiro todo junto num só país. Talvez faça mais sentido se disser que são as figuras humanas que o tornam assim. Mas a generalidade também não é nenhuma mentira. Não há na verdade uma norma que trace o Americano como… (como quê?) um “povo”? Esse biótipo do Americano não existe. Há toda uma mistura. De cores, de feitios, de línguas e de atitudes, e é isto que forma esse “Sonho” e que mais tarde o desperta.
Talvez já fosse de dia quando aterrei sozinho em São Francisco. Tinha junto uns dinheiros e em vez de viajar pela Europa fora, de comboio, como toda a gente fazia na altura, apanhei o primeiro pássaro que ia para o outro lado do Atlântico. Não era um Tupolev, mas ia para São Francisco. Dentro do avião já ia a imaginar tudo. Era uma cidade de todo familiar que conhecia bem dos filmes. As ruas íngremes, as casas, os eléctricos, a tal ponte, com o rio a passar por baixo rente ao chão.
Cheguei com o cansaço a ocupar-me as pernas. Mas a primeira coisa que quis fazer, mal cheguei, foi comer num daqueles restaurantes com grandes janelas para a rua, que cobrem toda uma esquina de lado a lado. Podem ter todos os nomes possíveis. El Mariachi. Brain Wash Cafe. Um Quadro do Hopper. De alguns deles, a Norte, consegue ver-se a ilha de Alcatraz. Têm as mesas corridas em paralelo com uns grandes cadeirões a quererem parecer, na vontade de saírem dali, compartimentos de um comboio. No meio, um balcão sem fim com homens que passam lá a vida. Não era por ter fome, que eu lá queria ir, era por querer ser como eles e ver todo o meu tempo a perder-se do mesmo modo. Há sempre umas raparigas com o nome “Nancy” pendurado no peito que nos atendem todas sorridentes. Estupendas, penso. E isso não é coisa que se esqueça assim de um dia para o outro.
Sentei-me ao balcão, todo excitado, tentando disfarçar o grande entusiasmo da primeira vez. Virgem, completamente virgem. A viagem tinha sido longa, mas aquele era o preciso instante em que estava a começar. Esta é a melhor parte da história, o seu início. A parte em que eu pego na ementa e começo a falar com a Nancy. Logo à entrada, na primeira página, e parecia que não tinha muito mais por onde escolher, estava a especialidade da casa: “French & Fries”. E eu pergunto:
- This was not supposed to be french fries?
Claro que não era suposto ser outra coisa, não podia achar que lhes estava a dar uma lição, como aqueles mais espertos do que eu que andavam pelas planícies europeias às voltas nos caminhos de ferro. Era tão especial que as letras saiam fora do papel a cair para o chão. Ela apontou, com os lindos olhos, para uma mesa atrás de mim, onde estavam dois homens sentados junto a uma das janelas, e disse, sem abrir a boca, que era “aquilo”. Eu virei-me e fiquei a olhar com espanto. Uma grande empada, aberta em cruz, cheia de batatas fritas no interior ainda a fumegar com um molho estranho e colorido. Azul. Branco. Vermelho. Mas tudo misturado, de uma só cor. Estive uma eternidade a tentar perceber quem tinha inventado aquela coisa.
- What are you looking at, kid? – perguntou o maior deles, com ar de quem me queria bater. Eu estava a olhar para a “especialidade da casa”, respondi. Eles não sabiam que era especial porque sempre comeram aquilo a vida inteira. E pensaram que me estava a referir a eles.
- Come here. What’s your name? – Disse-lhes o meu nome. “Ring”. Não estavam convencidos. Eu tinha um ar jovem e inocente, não tinha idade para convencer ninguém.
- Is that a name? – Não lhes podia contar a história do Tupolev, nem o resto, que levou a que me dessem este rótulo. Não iam acreditar. Peguei no passaporte e mostrei-lhes.
- Hallelujah? What is this? – E foi aí que a coisa começou a correr mal e nem pude apreciar o restaurante como era obrigatório no meu grandioso enredo. Nem a Nancy – shit! – porque afinal eles eram agentes da polícia e queriam saber porque raio o nome do meu país se chamava “Aleluia”. E fomos todos para a esquadra. “Frenched & Fried”, era um bom nome para o filme, com os vidros todos da minha janela a voarem pelo ar.
Também não é suposto, no país onde vivemos, que os mapas do mundo não tenham a nossa terra representada. Isso nunca foi uma questão. Mas eu não estava no meu país. Estava no mundo inteiro. E uma pessoa na América perde-se porque às tantas, ao ver todas as caras possíveis, deixa de saber onde está. Bem se pode estar na China, como no Uganda, como no Bangladesh, que é tudo igual e uma esquina é diferente da outra. E os mapas que eles tinham na esquadra não tinham o lugar de onde eu vinha. Em nenhum dos continentes, em nenhuma página. E eu procurei. Ajudei-os a procurar. Procurei. E nada. Tinha desaparecido. A única prova de que não estava dentro de um comboio a caminho de Belfast ou de Atenas, era porque tinha o carimbo dos E.U.A. estampado numa das páginas do meu passaporte que na capa dizia “Land of Hallelujha” e fora isso era igual a todos os outros. Da cor do molho da especialidade da casa. Naqueles tempos ainda não existia a mania do terrorismo, tinham-me deixado entrar sem problemas. E toda a gente queria saber porquê. Essa parecia ser a grande notícia.
Levaram-me de novo para o Aeroporto, à procura do homem que me tinha deixado entrar no País dos Sonhos, essa omolete. Lá estava ele. Velho. Uns grandes óculos, com um olhar muito eslavo. Eu nem tinha reparado quando entrei. E eles perguntaram-lhe tudo o que tinham a perguntar. Passado pouco tempo vieram ter comigo.
- You can go, kid! – estavam todos sorridentes, como a Nancy. Mas eu queria saber tudo. E fiquei à espera do homem do passaporte, o meu porteiro.
Afinal, esta é que é a parte melhor da história. Vejam. O homem também vinha a sorrir como a Nancy. Amigo de toda a gente. “Robert” ou “Ronnie” era a palavra que trazia ao peito. Parecia saber quem eu era. Mostrou-me o BI onde dizia a sua nacionalidade. E lá estava “Land of Hallelujah”, país com a população de quatro ou cinco habitantes, os tripulantes de um pássaro em fuga. Descobri depois, com o desenrolar da conversa, que aquela personagem tinha ajudado os meus pais a voar, tinha pilotado o Tupolev TU-134 e ainda tinha dado uma mãozinha no meu nascimento. Foi ele que me pôs a chupeta na boca. E eu pensei, “esta é a coisa mais estupenda que me podia acontecer.” No país do mundo inteiro toda a minha história a revelar-se assim, por acaso. A minha janela a brilhar. Inteira. Numa esquina de ponta a ponta. French & Fries deliciosas à minha frente. A Nancy a trazer-nos um café. Sem dioptrias e sem ventoinhas. Nada mais perfeito. Se contasse isto direitinho até podia ter entrado para o Guinness, mas sendo assim. Entre o contar e o não contar. Ser ou não ser. Não sobra mais nada.
[Este é um texto que surgiu n'As Marquesas e foi publicado no jornal Hoje Macau nos tempos idos de Maio de 2008]
• LIGAÇÃO À TERRA: aqui a imagem que faz parte desta história e que já tínhamos prometido trazer.














One Comment
Não se espantem, isto está mais ou menos, eu sei. Na verdade está um bocado palerma, mas era só uma ideia que eu cá tinha, don’t worry, já passou.
Anybody there?? Send your comments!