Amanhã submerso

Os casos de polícias são verdadeiramente casos que envolvem uma organização de termos e burocracias, de formalidades, mas que formam em todo o seu novelo uma intenção. A vontade de desvendar o caso ou a de o levar ao esquecimento, para que desapareça dos olhos da sociedade e se iliba em nome de uma memória colectiva dissipante. Está sempre a acontecer.

By Antønio Falcão

on 9 Jul 10

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Às sete e meia estava na casa de banho. Não é que isso importe, mas foi o que disse à Polícia, esses bandidos, quando mo perguntaram. Claro, substituí as palavras por outras. Disse-lhes: “Estava a urinar!”, foi isso que me saiu da boca. É incrível a pontaria que às vezes têm para estas coisas, os detectives, mas é verdade, olhei para o relógio, antes ou depois do acto em si, e lá estavam as sete e meia a passa, antes de me olhar ao espelho e achar que não estava com boa cara. Gostava de ser assim, pontual, como as horas. “Foi na casa de banho de uma livraria”, foi o que lhes disse mais. Descem-se dois ou três lanços de escadas e entra-se numa porta à esquerda, Estava uma fila de mulheres e um homem à espera. E eu perguntei ao homem se ele estava à espera de alguma coisa, se estava à minha frente ou não. “Ele é a minha única testemunha de que eu estava lá a essa hora”, dissertei eu aos olhos do agente que me olhava na ponta de uma esferográfica. Mas ele era estrangeiro, espanhol, catalão, basco, qualquer coisa, para o descobrir vai ser lixado. “É de todo impossível encontrá-lo!”. E se o encontrassem, decerto não conseguiria lembrar-se que seriam sete e meia quando eu passei por ele e me enfiei na porta à sua frente. “Rosto largo, bolachudo, óculos, e uma barba rala, era o que lhe compunha a face”. E não importa. Não importa mesmo nada. Nem ele nem o que eu estava a fazer nesse momento com a noite a entrar.

Eles queriam à força que eu criasse um álibi, queriam à força ir para casa e acabar com aquela história, dizer que tinha sido “morte instantânea”, ou assim, mas eu não estava para inventar, estava ali para dizer a verdade toda e somente a verdade, nem mais uma letra. O juramento tinha sido feito, como nos filmes, podiam ir buscar um detector de mentiras se lhes desse para esse lado. “E foi depois disso que estive com ela, uma hora mais tarde, talvez.” A cara do meu inquiridor não deixava enganos, quase que se podia ver um pingo de mostarda a arrastar-se pelo nariz afora, como se eu estivesse a dizer alguma barbaridade, a discordar do seu raciocínio só porque não tinha mais nada para fazer. A fúria acordava-lhe o pescoço e mudava-lhe a cor das veias, causando-lhe um engarrafamento mesmo ali no cruzamento do juízo. Eu não lhes pedi o que quer que fosse, chamaram-me para depor e era isso que estava a fazer. Não estava a querer distorcer os argumentos que já estavam definidos, nem nada. Factos verídicos, o que fiz, o que não fiz; o resto, o que ficou por fazer, já não era para ali chamado.

“Homem, isso é impossível, às sete e meia foi a hora a que ela desapareceu!”, e estendeu-me para a mão uma folha cheia de arabescos, onde se encontravam descritos, numa linguagem tauromáquica ou vinícola, uma série de dados técnicos, eram as análises feitas pelo departamento de medicina legal. Depois uma resma de fotografias, o chão, uma repetição de vários ângulos de um espaço semi-circular traçado a giz. Sem corpo nenhum. Compreendi que me queria explicar que aquele era o local onde se deu o sumiço. Realmente no meio do traço, numa parte mais escura da calçada, depreendiam-se os restos do que poderia ter sido uma fogueira. Testes de carbono e ADN eram as provas mais válidas e não deixavam margens para dúvidas. Era daí que lhes vinha a irritação. A vontade de me devorarem à chapada. E não deixavam de ter razão, a pessoa era a mesma, não dava para haver enganos. Física e química numa folha de papel. Numa imagem. Nas fotografias da morgue. Aqueles olhos despertos para tudo o que os rodeava falavam por si. Estavam lá na fotografia, estavam lá como os vi, estavam lá como eles os descreveram. Sim, era a mesma pessoa. Mas não às sete e meia.

Repeti-lhes de novo. Essa parte do relógio, desta vez com indizíveis pormenores, e os eventos que se seguiram, que faziam parte do fragmento em que eles não acreditavam. E quando lá chegava eles começavam a coçar-se à minha frente, quase que se despiam, e a espumar da boca, enjoados de todo. Com sarna. Não podia dizer mais, nem dizer mais alto, nem dizer com os meus olhos mais abertos; as mãos fechadas, murros na mesa, ou usando uma série de sinónimos ou uma linguagem metafórica. Foi isso. Aconteceu. Tudo para lá da hora do rapto ou como lhe querem chamar. Combustão humana espontânea, se quiserem. Nem sei porque é que foram dar com esse minuto, essa certidão. Ainda lhes perguntei sobre o fuso horário, em que hora viviam, mas nem isso me valeu. Eles sabiam muito mais do que eu.

E o que foi? Subimos a rua, enganámo-nos no caminho, voltámos para trás, subimos por outro lado, descemos, e eu a criar sempre uma nova imagem, a cada passo, uma imagem de escreve/apaga. Uma imagem que assim que era vista, era apagada. Com novos nódulos, novas cores, novas fórmulas. E era isso. O tempo não contava, o tempo meteorológico. Dez, onze, onze e meia. Meia noite. Os espaços iluminavam-se à nossa passagem, as mesas, onde nos sentávamos, enchiam-se de luz. E não era preciso dizer tudo, bastava o ver; o abismo de um olhar profundo que não se agarrava. Ia e vinha. Ia e vinha. Ia e vinha.

O que foi? Não sei bem. Acredito num mundo de sonhos. Acredito em histórias de fadas e duendes. Em sapos e em príncipes. Perco-me nessa virtualidade do sonho onde tudo se faz. E depois perco-me. Dentro do meu mundo fantástico que se abre durante o sono há sempre alguém que não me deixa andar. Por exemplo, o dono de uma tasca, um bar numa viela escura, onde vou sempre, não me deixa beber a partir de certa altura. Nos meus sonhos esse homem acha que se bebo mais fico louco. E ele não me quer assim. Tem esperança que algum dia todo eu me transforme e chegue lá.

E era isso que estava a tentar explicar àqueles outros homens que envergavam a mão da autoridade, e dizer-lhes que aquilo não era sonho nenhum, que o que aconteceu, aconteceu do lado de cá. Uma história a sério, não era uma pena a voar dentro de um livro, infestado de dragões e unicórnios e outros bichos fantásticos, no mundo em que acordamos e que percorremos. Sim pode ter desaparecido, pode alguém ter feito uma fogueira nesse mesmo sítio e ter-se deixado ir pela rua acima. Mas não naquela hora, não no momento provado pela realidade dos factos. Não no momento em que eu estava na casa de banho da livraria a aliviar-me da pressão urinária. Era só isso que lhes queria fazer entender. O resto não importa. O resto que se lixe. Só a verdade interessa.

[Publicado no jornal Hoje Macau em 8 de Julho de 2010 • Versão adaptada de um texto de Ring Joid de 2006 intitulado "Pistola Viciada"]

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