-Quoyle *?
Do outro lado nada. Só um silêncio que se desdobra aos poucos. Quatro, cinco segundos e ninguém na outra extremidade da linha. Talvez um ruído de fundo. Um rádio ligado, esquecido, uma motorizada a passar na rua, em esforço, o zumbir de um ar-condicionado, que a querer imitar um relógio parece pingar os segundos, um por um. Todos estes sons misturados e muito leves, quase surdos. Como se nada fosse.
De repente.
- Wei? – É assim na língua estrangeira, daqui, que na verdade não é estrangeira coisa nenhuma.
O que vale na escrita, apesar da seriedade que encerra, é que se pode sempre brincar com ela, podemos esticá-la até ao seu limite, cortá-la aos bocadinhos e dar-lhe um outro sentido, e por essa razão é possível ter uma tradução instantânea. Todo o diálogo que se segue passou-se em chinês. É verdade. As minhas relações comerciais e o meu vício no jogo, sempre com relativo sucesso, ao longo de todos estes anos tornaram-me hábil na língua nativa desta ilha. Começando pelo calão, que é como se entra, o resto veio com o tempo e agora não me é difícil compreender mesmo o mais complicado dos sotaques. E para além disso já arranho quase todos os dialectos que se alastram por aqui.
- O Quoyle?
- Quoyle? Não há aqui ninguém com esse nome. Não está cá ninguém. Sabes que horas são?
- Sei, é tarde. Mas isso não quer dizer nada, pensei que ele estivesse aí, que estava sempre aí.
Eram quatro e meia da manhã.
- Pois, mas não está, não conheço. Com licença.
E desligou.
- Sim?
- Sou eu outra vez.
- Tu? E quem és tu?
Disse-lhe o meu nome. O rádio ligado estava na estação portuguesa e dava as ocorrências que chegavam do outro lado do mundo, pontes, tristezas, súplicas femininas. Vinham por um fio muito ténue e por entre essas vozes distantes quase que se conseguia ouvir o brilho artificial das luzes. O homem do outro lado respirou umas quantas vezes. Piscou os olhos depois disso. Compreendia eu.
- E porque queres falar com essa pessoa a esta hora, não podes ligar amanhã? Não tens o telemóvel?
- Já tentei. Está desligado. Tem de ser agora, queria perguntar-lhe uma coisa. Preciso de saber se ele quer entrar numa história.
- Uma história? Que história?
- Uma coisa que estou a escrever. Uma espécie de romance histórico mas mais curto, sem tantas personagens. Só com uma ou duas.
O meu parceiro do outro lado da linha estava a ficar entusiasmado com a conversa.
- Para um livro? Pensei que os romances históricos eram escritos com personagens da História que já morreram há muito tempo. A glória dos Soldados, a astúcia dos Pioneiros, o ardor dos Reis. É isso que eles vão buscar. Depois misturam tudo com outros episódios lavrados na cabeça de quem os escreve e já está. É uma receita simples, é como uma sopa de fitas, é só juntar água. Eu sei disso tudo. Aqui passo o tempo a ler e é o que gosto mais de fazer.
- Trabalhas aí?
- Sou o homem da limpeza. Faço o meu trabalho em vinte minutos e o resto do turno, que devia durar duas horas e meia, passo-o a ler. Era isso que estava a fazer agora. Leio de tudo. Tudo o que consigo apanhar. E acredita que ninguém se queixa, deixo tudo limpinho.
- Tens uma bela vida.
- Faço por isso. Só temos uma para viver, não é? É preciso aproveitar e fazer o que é bom, o que vale a pena. Se estás a escrever um livro, só te posso dar os parabéns.
Deste lado o quarto está vazio e cheio de pó. Uma ventoinha roda no tecto. Há um relógio que pulsa o ar frio. Tenho pouco mais de trinta e estou sentado numa mesa de jogar às cartas, daquelas de feltro verde. A única coisa que está aqui em cima da mesa é um livro. De vez em quando olho para ele. O título na capa com letras gordas. “Senta”. Se o abrir sei muito bem o que está lá escrito: “senta senta senta senta senta senta…” repetidamente, página após página. Sempre que o fecho dá-me vontade de me pôr de pé, como agora, mas não o faço. Suspiro em vez disso. E o livro muda de título. Agora chama-se “Morre”. Consigo adivinhar o que vem de dentro: “morre morre morre morre morre…”. Ouve-se um galo a sufocar lá fora. Ainda tenho o telefone na mão. Continuo.
- Para dizer a verdade, isto não é um livro. Nem é feito à semelhança de um romance histórico tradicional. Ainda não sei bem o que é. Dei-lhe essa designação porque é mais fácil desse modo desenhar-lhe uma face. Depois logo se vê. Vai-se por aí fora, não é? Vamos perdidos aos encontrões por aí abaixo. É isso que dá a força à escrita.
- Mas ainda não percebi porque é que telefonaste para aqui. Esse livro tem pessoas reais, coisas verdadeiras, ou é uma obra de ficção na íntegra?
- De uma ponta à outra é tudo inventado. “Íntegra”? Ora aí está uma palavra que eu não sabia que compreendia. Mas é isso, tudo o que se escreve, baseado ou não no real, é criação. Não se pode reproduzir por palavras uma coisa do passado, nem o que está a acontecer. É preciso tomar uma posição. Mesmo se estivermos a relatar o que estamos a ver é necessário orientar as palavras e por mais pequeno que seja o impulso já se está a descobrir uma nova forma de o dizer.
- Pode ser-se muito fiel.
- Mas são os teus olhos. São os teus sentidos. Eles é que absorvem a informação toda. O que vai sair não é decerto a verdade universal.
- Mas as cores, o tempo, as formas, podem ser traduzidos de maneira linear. Os animais. O encarnado não tem nada que enganar, pois não?
E é um pouco verdade. O encarnado é uma cor perfeita. No entanto, eu gosto de contrariar.
- Mas sei lá eu se não és um irmão daltónico, se tens vertigens ou claustrofobia, se a tua biologia interna funciona a outra velocidade. Isso tudo afecta a perspectiva. Diz-me onde posso encontrar o Quoyle, por favor.
- Não sei. A estas horas as pessoas dormem, não sei se sabes. Porque é que não ligas para os outros jornais, liga para a Tribuna, para o Ponto Final ainda lá devem estar. Ou para o outro, daquele lingrinhas. Não me digas que também escreves para um diário?
- Mais ou menos.
- Mais ou menos?
- Sim, mais ou menos.
A esta pergunta, a quem a fizer, se escrevo para um jornal ou não, respondo sempre da mesma maneira. E não há explicação a dar. Por isso é bom que não a façam. Eu achava que estava a ligar para o Grulhaço Terra-Novense, e que ele me estava a enganar e que na verdade nem estávamos a falar chinês, era só impressão minha.
- Já vi que não tens a resposta na ponta da língua. Mas diz-me lá o que querias do desse Quyole, de que modo iria ele entrar na história.
- Ainda não sei. Só lhe queria telefonar a perguntar. Queria saber se podia contar com ele. Estou a escrever uma peça para um jornal… Está bem, confesso, é para aí mesmo. Ok, também escrevo para os jornais, também fui picado por esse mosquito. E não é para o da paróquia, está descansado.
- Descansado? Eu quero lá saber. Eu sou o homem da limpeza, já te tinha dito. Leio umas coisas, sim, mas é cá comigo, ninguém me chateia por causa disso. Só estava com curiosidade, mais nada. Queria saber se estavas a escrever uma espécie de ‘Being John Malkovich’. Curiosidade, só isso.
- Não, não, nada disso. Pode parecer até, mas não. Posso até pôr o primeiro parágrafo desse filme aqui, só para enganar. Mas o meu processo é bastante mais simples. Umas coisas sobre a terra. Uns nomes verdadeiros. O Quoyle, se ele quiser. Coisas que se passam. Uns ruídos de fundo. O zumbir do plural dos ares-condicionados a crepitar na boca da redacção. Uma conversa ao telefone, talvez, noutra língua mas com a piada de que é traduzido em instantâneo. Os leitores acham graça a isso tudo e até se riem, acredita. Depois arranjam-se umas quantas outras personagens pelo meio e pronto. Não sei. Nunca se sabe. Mas, assim como as sopas de fita, é só juntar água: engole-se em dois minutos. Tu sabes
- Estou para ver. Tenho pena por só puder ver porque não sei essa língua, não vou conseguir ler.
- Também não perdes nada. Eu conto-te depois, não te preocupes, se me fizeres um favor.
- Um favor? Olha que eu não faço favores a ninguém.
- És como eu, também não faço favores a ninguém, tens toda a razão. Mas olha podes deixar aí um recado para o caso dele entretanto chegar?
- Ele não chega. Não há aqui ninguém com esse nome. Mas eu deixo, se isso te faz feliz.
- Diz-lhe para me ligar com urgência, preciso de saber se posso usar o nome dele. Gostava de usá-lo na minha história. Vou ficar à espera.
- Mas eu não sei escrever em português. Como é que vamos fazer isso?
- Mando-te uma mensagem para o teu telemóvel e tu copias.
- Está bem, até te posso ajudar porque acho piada a esses método de criação. Até me rio com o resultado. O ganir dos galos, os rádios ligados. Está aqui um rádio a dar as notícias da tua terra, podes pô-lo na tua história se quiseres. Ou o barulho da minha mota a subir a ladeira, fica sempre bem um ruidozinho.
- Tens razão. Obrigado.
- E já agora, como se vai chamar?
- “Romance histórico.”
- Muito bem. Acho que o Quoyle não se vai importar, seja lá quem ele for, usa o nome à vontade.
- Achas?
- Sim, não te preocupes. Se ele disser alguma coisa diz-lhe que fui eu… Boa sorte.
E como não havia mais nada para dizer, desligámos.
* Quoyle é a personagem principal do romance de ‘The Shipping News‘ de E. Annie Proulx. Na verdade, este nosso amigo estava só a querer telefonar para dentro de um livro.
[Memória Indulgente #6 • Publicado no jornal Hoje Macau • 18 JUN 2010]














One Comment
Clap clap clap! Adorei! Beijos!