Romance histórico

Esta é uma história perdida, que foi ficando na gaveta e que moveu outras vontades. Os nomes eram outros. Mas os nomes não tinham importância afinal, por pertencerem a gente pequenina. Agora tudo se levante e chega como novo.

By Antønio Falcão

on 18 Jun 10

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-Quoyle *?
Do outro lado nada. Só um silêncio que se desdobra aos poucos. Quatro, cinco segundos e ninguém na outra extremidade da linha. Talvez um ruído de fundo. Um rádio ligado, esquecido, uma motorizada a passar na rua, em esforço, o zumbir de um ar-condicionado, que a querer imitar um relógio parece pingar os segundos, um por um. Todos estes sons misturados e muito leves, quase surdos. Como se nada fosse.
De repente.
- Wei? – É assim na língua estrangeira, daqui, que na verdade não é estrangeira coisa nenhuma.
O que vale na escrita, apesar da seriedade que encerra, é que se pode sempre brincar com ela, podemos esticá-la até ao seu limite, cortá-la aos bocadinhos e dar-lhe um outro sentido, e por essa razão é possível ter uma tradução instantânea. Todo o diálogo que se segue passou-se em chinês. É verdade. As minhas relações comerciais e o meu vício no jogo, sempre com relativo sucesso, ao longo de todos estes anos tornaram-me hábil na língua nativa desta ilha. Começando pelo calão, que é como se entra, o resto veio com o tempo e agora não me é difícil compreender mesmo o mais complicado dos sotaques. E para além disso já arranho quase todos os dialectos que se alastram por aqui.
- O Quoyle?
- Quoyle? Não há aqui ninguém com esse nome. Não está cá ninguém. Sabes que horas são?
- Sei, é tarde. Mas isso não quer dizer nada, pensei que ele estivesse aí, que estava sempre aí.
Eram quatro e meia da manhã.
- Pois, mas não está, não conheço. Com licença.
E desligou.
- Sim?
- Sou eu outra vez.
- Tu? E quem és tu?
Disse-lhe o meu nome. O rádio ligado estava na estação portuguesa e dava as ocorrências que chegavam do outro lado do mundo, pontes, tristezas, súplicas femininas. Vinham por um fio muito ténue e por entre essas vozes distantes quase que se conseguia ouvir o brilho artificial das luzes. O homem do outro lado respirou umas quantas vezes. Piscou os olhos depois disso. Compreendia eu.
- E porque queres falar com essa pessoa a esta hora, não podes ligar amanhã? Não tens o telemóvel?
- Já tentei. Está desligado. Tem de ser agora, queria perguntar-lhe uma coisa. Preciso de saber se ele quer entrar numa história.
- Uma história? Que história?
- Uma coisa que estou a escrever. Uma espécie de romance histórico mas mais curto, sem tantas personagens. Só com uma ou duas.
O meu parceiro do outro lado da linha estava a ficar entusiasmado com a conversa.
- Para um livro? Pensei que os romances históricos eram escritos com personagens da História que já morreram há muito tempo. A glória dos Soldados, a astúcia dos Pioneiros, o ardor dos Reis. É isso que eles vão buscar. Depois misturam tudo com outros episódios lavrados na cabeça de quem os escreve e já está. É uma receita simples, é como uma sopa de fitas, é só juntar água. Eu sei disso tudo. Aqui passo o tempo a ler e é o que gosto mais de fazer.
- Trabalhas aí?
- Sou o homem da limpeza. Faço o meu trabalho em vinte minutos e o resto do turno, que devia durar duas horas e meia, passo-o a ler. Era isso que estava a fazer agora. Leio de tudo. Tudo o que consigo apanhar. E acredita que ninguém se queixa, deixo tudo limpinho.
- Tens uma bela vida.
- Faço por isso. Só temos uma para viver, não é? É preciso aproveitar e fazer o que é bom, o que vale a pena. Se estás a escrever um livro, só te posso dar os parabéns.
Deste lado o quarto está vazio e cheio de pó. Uma ventoinha roda no tecto. Há um relógio que pulsa o ar frio. Tenho pouco mais de trinta e estou sentado numa mesa de jogar às cartas, daquelas de feltro verde. A única coisa que está aqui em cima da mesa é um livro. De vez em quando olho para ele. O título na capa com letras gordas. “Senta”. Se o abrir sei muito bem o que está lá escrito: “senta senta senta senta senta senta…” repetidamente, página após página. Sempre que o fecho dá-me vontade de me pôr de pé, como agora, mas não o faço. Suspiro em vez disso. E o livro muda de título. Agora chama-se “Morre”. Consigo adivinhar o que vem de dentro: “morre morre morre morre morre…”. Ouve-se um galo a sufocar lá fora. Ainda tenho o telefone na mão. Continuo.
- Para dizer a verdade, isto não é um livro. Nem é feito à semelhança de um romance histórico tradicional. Ainda não sei bem o que é. Dei-lhe essa designação porque é mais fácil desse modo desenhar-lhe uma face. Depois logo se vê. Vai-se por aí fora, não é? Vamos perdidos aos encontrões por aí abaixo. É isso que dá a força à escrita.
- Mas ainda não percebi porque é que telefonaste para aqui. Esse livro tem pessoas reais, coisas verdadeiras, ou é uma obra de ficção na íntegra?
- De uma ponta à outra é tudo inventado. “Íntegra”? Ora aí está uma palavra que eu não sabia que compreendia. Mas é isso, tudo o que se escreve, baseado ou não no real, é criação. Não se pode reproduzir por palavras uma coisa do passado, nem o que está a acontecer. É preciso tomar uma posição. Mesmo se estivermos a relatar o que estamos a ver é necessário orientar as palavras e por mais pequeno que seja o impulso já se está a descobrir uma nova forma de o dizer.
- Pode ser-se muito fiel.
- Mas são os teus olhos. São os teus sentidos. Eles é que absorvem a informação toda. O que vai sair não é decerto a verdade universal.
- Mas as cores, o tempo, as formas, podem ser traduzidos de maneira linear. Os animais. O encarnado não tem nada que enganar, pois não?
E é um pouco verdade. O encarnado é uma cor perfeita. No entanto, eu gosto de contrariar.
- Mas sei lá eu se não és um irmão daltónico, se tens vertigens ou claustrofobia, se a tua biologia interna funciona a outra velocidade. Isso tudo afecta a perspectiva. Diz-me onde posso encontrar o Quoyle, por favor.
- Não sei. A estas horas as pessoas dormem, não sei se sabes. Porque é que não ligas para os outros jornais, liga para a Tribuna, para o Ponto Final ainda lá devem estar. Ou para o outro, daquele lingrinhas. Não me digas que também escreves para um diário?
- Mais ou menos.
- Mais ou menos?
- Sim, mais ou menos.
A esta pergunta, a quem a fizer, se escrevo para um jornal ou não, respondo sempre da mesma maneira. E não há explicação a dar. Por isso é bom que não a façam. Eu achava que estava a ligar para o Grulhaço Terra-Novense, e que ele me estava a enganar e que na verdade nem estávamos a falar chinês, era só impressão minha.
- Já vi que não tens a resposta na ponta da língua. Mas diz-me lá o que querias do desse Quyole, de que modo iria ele entrar na história.
- Ainda não sei. Só lhe queria telefonar a perguntar. Queria saber se podia contar com ele. Estou a escrever uma peça para um jornal… Está bem, confesso, é para aí mesmo. Ok, também escrevo para os jornais, também fui picado por esse mosquito. E não é para o da paróquia, está descansado.
- Descansado? Eu quero lá saber. Eu sou o homem da limpeza, já te tinha dito. Leio umas coisas, sim, mas é cá comigo, ninguém me chateia por causa disso. Só estava com curiosidade, mais nada. Queria saber se estavas a escrever uma espécie de ‘Being John Malkovich’. Curiosidade, só isso.
- Não, não, nada disso. Pode parecer até, mas não. Posso até pôr o primeiro parágrafo desse filme aqui, só para enganar. Mas o meu processo é bastante mais simples. Umas coisas sobre a terra. Uns nomes verdadeiros. O Quoyle, se ele quiser. Coisas que se passam. Uns ruídos de fundo. O zumbir do plural dos ares-condicionados a crepitar na boca da redacção. Uma conversa ao telefone, talvez, noutra língua mas com a piada de que é traduzido em instantâneo. Os leitores acham graça a isso tudo e até se riem, acredita. Depois arranjam-se umas quantas outras personagens pelo meio e pronto. Não sei. Nunca se sabe. Mas, assim como as sopas de fita, é só juntar água: engole-se em dois minutos. Tu sabes
- Estou para ver. Tenho pena por só puder ver porque não sei essa língua, não vou conseguir ler.
- Também não perdes nada. Eu conto-te depois, não te preocupes, se me fizeres um favor.
- Um favor? Olha que eu não faço favores a ninguém.
- És como eu, também não faço favores a ninguém, tens toda a razão. Mas olha podes deixar aí um recado para o caso dele entretanto chegar?
- Ele não chega. Não há aqui ninguém com esse nome. Mas eu deixo, se isso te faz feliz.
- Diz-lhe para me ligar com urgência, preciso de saber se posso usar o nome dele. Gostava de usá-lo na minha história. Vou ficar à espera.
- Mas eu não sei escrever em português. Como é que vamos fazer isso?
- Mando-te uma mensagem para o teu telemóvel e tu copias.
- Está bem, até te posso ajudar porque acho piada a esses método de criação. Até me rio com o resultado. O ganir dos galos, os rádios ligados. Está aqui um rádio a dar as notícias da tua terra, podes pô-lo na tua história se quiseres. Ou o barulho da minha mota a subir a ladeira, fica sempre bem um ruidozinho.
- Tens razão. Obrigado.
- E já agora, como se vai chamar?
- “Romance histórico.”
- Muito bem. Acho que o Quoyle não se vai importar, seja lá quem ele for, usa o nome à vontade.
- Achas?
- Sim, não te preocupes. Se ele disser alguma coisa diz-lhe que fui eu… Boa sorte.
E como não havia mais nada para dizer, desligámos.

* Quoyle é a personagem principal do romance de ‘The Shipping News‘ de E. Annie Proulx. Na verdade, este nosso amigo estava só a querer telefonar para dentro de um livro.

[Memória Indulgente #6 • Publicado no jornal Hoje Macau • 18 JUN 2010]

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  1. Anna added these meaningful words on June 18, 2010 | Permalink

    Clap clap clap! Adorei! Beijos!

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  • Cascos de rolha
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  • Sanus & Statua

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  • 03.Apr
  • Step over my dead body
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  • She’ll come, she’ll go
  • Lady Grinning Soul” is a ballad written by David Bowie, the final track on the album Aladdin Sane, released in 1973. The composer’s first meeting with American soul singer Claudia Lennear in 1972 is often cited as the inspiration for the song. One of most underrated songs quite unlike anything else Bowie has ever done.

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  • 09.Feb
  • The stitches open
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    Dan said in an interview on TV that the name of the band is formed with the initials of their names. The word “dø” means “die” in Danish and Norwegian.

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Plurimus

Acreditamos que neste lugar tudo podemos fazer. Toda a liberdade existe por aqui. E nada mais importa.

We believe that in this place we can do everything. Freedom flows all over. And nothing else matters..

Flamma

E mais seremos se daqui pudermos ver o resto do Atlas e todo o Passado e, para além disso, uma boa parte do Futuro.

Nuntius