De noite, a certos dias do mês, trabalho numa empresa de segurança. Sou vigilante e revejo as gravações de certas câmaras espalhadas pela cidade e pelos domínios públicos. Este é um momento desses. Uma história que fui agarrando aqui e ali e que procurei seguir a todo o custo, reajustando os meus horários e o meu tempo livre, trocando as folgas com os meus colegas, que nunca vi. Não me pagam nada por isso, faço-o como voluntário, para combater as insónias.
Estamos numa recebedoria das finanças. Uma vinheta da superintendência governamental. Começa assim.
- Vai lá acima! Foste seleccionado.
- Seleccionado?
- Sim, para a comissão do urso!
O material não é muito bom e a imagem devia ser a preto e branco mas tem uma coloração estranha como se na realidade fosse a cores e tivesse um filtro para daltónicos. Por isso, cada um dos intervenientes aparece com um brilho distinto, um com um silvo fosforescente, que vem como um tiro, e o outro com um tom púrpura, que lhe dá um ar de fantasma. Não sei se é problema do emissor ou do receptor, na requisição deveria estar outra coisa, mas pelo caminho há sempre alguém que mete a mão ao bolso. Às vezes vou para casa a pensar que o problema é meu.
Mais à frente.
- Não dizes nada?
- Que queres que diga?
- Foi uma fortuna ter-te saído a ti. Não te mexes?
Não se mexia por causa dos nervos. E a razão só a descobri mais tarde, depois de investigação prolongada. Na realidade, tinha percebido U.R.S.O., a sigla de um organismo que sempre pensou só ter existência nos seus sonhos ou nos livros aos quadradinhos, e ficou perplexo, com um certo medo em saber o que o esperaria lá em cima, no andar do conselho administrativo.
Para descortinar o que era o U.R.S.O. tive que seduzir uma data de gente para que me desse acesso a documentação privada, mas isso conto depois. Depois da desilusão, que veio logo a seguir.
Gosto das coisas perfeitas, nada é ao acaso, e quando se me mete uma na cabeça levo-a até ao fim, custe o que custar, até àquilo que mais ninguém repara, mesmo que demore um século. E acabo sempre por ser bastante criticado por isso. Assim foi fácil colocar os telemóveis de ambos sob escuta, o parágrafo seguinte veio por SMS numas horas extraordinárias que fiz na brigada das mensagens pedidas.
“Fds meu! afinal eram ursos e nao URSO!”
Nessa altura já eu tinha encaixado um GPS no automóvel de cada um, mesmo em casa sabia por onde é que eles andavam, tal era a obsessão.
O prolongamento do enredo foi então apanhado num engarrafamento de trânsito numa via algures na cidade. Tive de mandar o filme para alguém que decifrasse a leitura dos lábios. Mas hoje em dia consegue-se tudo, na Suíça ou mesmo aqui ao lado. Estava a chover por isso foi um pouco mais caro.
- Eu não te enganei, o urso, toda a gente sabe o que é? Mas conta-me como correu.
- Ao que parece é por causa de uns ursos, foi o que percebi. Ursos para aqui, ursos para ali. Assim que soube que era isso desinteressei-me pelo assunto. Não sei mais nada, não te posso dizer mesmo que queira.
- Desinteressaste-te? Mas tu tiveste uma sorte dos diabos. Sabes quantas pessoas queriam fazer parte disso?
- Não, quantas?
- Só nos nossos serviços para aí um milhão. Nem imaginas a inveja assim que souberam.
A história do U.R.S.O é a seguinte. No ano 27 AC, um grupo de pessoas, de origem indefinida, maioritariamente celtas desavindos, aborrecidos com a vida, decidiram juntar-se em certas alturas do ano para debater a natureza humana e encontrar caminhos para uma existência superior. O nome vem do Latim e quer dizer Uma Rede Sem Ordem. Não tinham indumentária, nem ritos especiais, nem grandes lengas-lengas. Não provavam vinho, nem muito menos o cuspiam de seguida. Acreditavam no Homem, na Natureza e na sua fusão como poder criativo e inspirador, e o que os regia era um simples tratado de astronomia. O fluxo do Sol. As fases da Lua. O breviário das estrelas, e as suas reproduções no céu. As águas e as marés. Tudo como marcadores de uma postura mental. Uma orientação. De tempo e de espaço. E um desejo imenso de fazer melhor, pelos que sobreviriam. Pelo futuro.
Segundo reza a lenda, estamos a falar de uma individualidade onírica, esse documento, encontrado séculos depois numa ermida ostrogoda, viria a ser a base de muitos manuais sagrados, como a Bíblia e o Aldrabão, que viriam a incentivar muitas das religiões dos nossos tempos. Nos pensamentos mais nobres desta criatura de tez transparente, funcionário público dedicado, essa trama ainda hoje subsiste, engrandecida por um universo vigoroso, e a que qualquer momento despertará, para o bem de toda a humanidade e de todos os seres vivos.
Ainda hoje lhe faz confusão os adjectivos que dão aos países, acatados às amarras de alguma religião. E quando, por castigo, houve a “Indonésia é o maior país muçulmano” fica meio desvairado com vontade de apertar o nariz a alguém. Em discussões acaloradas no café refuta toda a sua descompostura, “antes de ser rapaz ou rapariga os bebés já têm uma etiqueta”, como se viesse tudo escrito na ecografia. E por vezes ainda pragueja como quem larga um palavrão dizendo “virgem santíssima!”
E o que o desvia, e o acalma, é o seu pensamento no U.R.S.O., a imaginá-lo a rugir nos confins do tempo, quando os anos ainda não eram anos. A fazer contas de cabeça, a meditar como é que o monge cita, Dionísio, o Exíguo, se pôs a calcular a data da Páscoa cristã e de repente se estava no ano 527. Incrível como o cosmos muda. E antes disso? É tudo de ouvir falar. Como o Rei Herodes, contemporâneo de um certo Cristo.
Muito à frente, no ímpeto da muralha do tráfego, no que restava da câmara 1111.
- Vais andar a passear. És uma pessoa importante agora. Não podes pisar o risco. És um observador. O olhar do povo.
Dizia-lhe o amigo, enquanto arrancavam e o burburinho viário reocupava o óculo da câmara. Ele com certeza ainda a matutar na obliteração nazi e seguramente a dizer para o amigo, de olhos vagos, “e os Judeus são porventura alguma raça?”
De vez em quando cruzo-me com eles na rua. Se os vejo ao longe atravesso a passadeira e fico junto a estes dois amigos, como se fossem as únicas pessoas que verdadeiramente conheço e em quem confio. Já sem a cor lima e lilás que os caracteriza na imagem mas ainda com alguma peça de roupa a condizer.
No outro dia apanhei uma conversa ao telefone. Uma chamada internacional.
- Sabes, hoje abri os ouvidos e fiquei todo o dia atento.
- Sim? Conta, o que se passou?
- Alguém disse que os ursos deviam ir para a assembleia. Que deviam arranjar lá um lugar e fazer umas obras de adaptação. Não custava nada. Que eles são um assunto de estado e que deviam ser respeitados como tal.
- Não acredito!
- Sim e já estavam a atirar ideias para o ar de colocar dois botões enormes no tampo das mesas para que eles pudessem pressionar!
- Para pedir comida?
- Não! Para votarem as leis. Dizem eles que isso é o verdadeiro exemplo de democracia.
- Incrível! E o que disseste tu?
- Não disse nada. Como sabes eu só vim para ver e no final produzo um relatório, é essa a minha função. Mas gostei da ideia. Finalmente fazem alguma coisa pela natureza. De qualquer modo já todos tinham aprovado essa resolução.
Fascinava-o a ideia de ter um U.R.S.O. a comandar os destinos de um povo. E, para além de se ver acordado no seu sonho, já era um bom começo e um exemplo grandioso para restituir o bom nome às nações.
Quanto a mim, que estou do lado de cá, é uma excelente ideia. Talvez me traga o desejado descanso. Terei outras vigilâncias para apreciar e sempre posso ir variando a minha indumentária. O meu rito.
[Memória Indulgente #5 • Publicado no jornal Hoje Macau • 12 JUN 2010]














