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Dionísio, o Exíguo (ou seja Dionísio o Menor, significando o Humilde), foi um monge do século VI, nascido na Cítia Menor (c. 470), no que é actualmente a região de Dobruja, Roménia, membro da chamada comunidade dos monges da Cítia em Roma. Versado em matemática e em astronomia, celebrizou-se pela criação de um conjunto de tabelas para calcular a data da Páscoa, levando à introdução do conceito de anno Domini, o ano do Senhor.

By Antønio Falcão

on 4 Jun 10

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De noite, a certos dias do mês, trabalho numa empresa de segurança. Sou vigilante e revejo as gravações de certas câmaras espalhadas pela cidade e pelos domínios públicos. Este é um momento desses. Uma história que fui agarrando aqui e ali e que procurei seguir a todo o custo, reajustando os meus horários e o meu tempo livre, trocando as folgas com os meus colegas, que nunca vi. Não me pagam nada por isso, faço-o como voluntário, para combater as insónias.

Estamos numa recebedoria das finanças. Uma vinheta da superintendência governamental. Começa assim.
- Vai lá acima! Foste seleccionado.
- Seleccionado?
- Sim, para a comissão do urso!
O material não é muito bom e a imagem devia ser a preto e branco mas tem uma coloração estranha como se na realidade fosse a cores e tivesse um filtro para daltónicos. Por isso, cada um dos intervenientes aparece com um brilho distinto, um com um silvo fosforescente, que vem como um tiro, e o outro com um tom púrpura, que lhe dá um ar de fantasma. Não sei se é problema do emissor ou do receptor, na requisição deveria estar outra coisa, mas pelo caminho há sempre alguém que mete a mão ao bolso. Às vezes vou para casa a pensar que o problema é meu.
Mais à frente.
- Não dizes nada?
- Que queres que diga?
- Foi uma fortuna ter-te saído a ti. Não te mexes?
Não se mexia por causa dos nervos. E a razão só a descobri mais tarde, depois de investigação prolongada. Na realidade, tinha percebido U.R.S.O., a sigla de um organismo que sempre pensou só ter existência nos seus sonhos ou nos livros aos quadradinhos, e ficou perplexo, com um certo medo em saber o que o esperaria lá em cima, no andar do conselho administrativo.
Para descortinar o que era o U.R.S.O. tive que seduzir uma data de gente para que me desse acesso a documentação privada, mas isso conto depois. Depois da desilusão, que veio logo a seguir.
Gosto das coisas perfeitas, nada é ao acaso, e quando se me mete uma na cabeça levo-a até ao fim, custe o que custar, até àquilo que mais ninguém repara, mesmo que demore um século. E acabo sempre por ser bastante criticado por isso. Assim foi fácil colocar os telemóveis de ambos sob escuta, o parágrafo seguinte veio por SMS numas horas extraordinárias que fiz na brigada das mensagens pedidas.
“Fds meu! afinal eram ursos e nao URSO!”
Nessa altura já eu tinha encaixado um GPS no automóvel de cada um, mesmo em casa sabia por onde é que eles andavam, tal era a obsessão.
O prolongamento do enredo foi então apanhado num engarrafamento de trânsito numa via algures na cidade. Tive de mandar o filme para alguém que decifrasse a leitura dos lábios. Mas hoje em dia consegue-se tudo, na Suíça ou mesmo aqui ao lado. Estava a chover por isso foi um pouco mais caro.
- Eu não te enganei, o urso, toda a gente sabe o que é? Mas conta-me como correu.
- Ao que parece é por causa de uns ursos, foi o que percebi. Ursos para aqui, ursos para ali. Assim que soube que era isso desinteressei-me pelo assunto. Não sei mais nada, não te posso dizer mesmo que queira.
- Desinteressaste-te? Mas tu tiveste uma sorte dos diabos. Sabes quantas pessoas queriam fazer parte disso?
- Não, quantas?
- Só nos nossos serviços para aí um milhão. Nem imaginas a inveja assim que souberam.
A história do U.R.S.O é a seguinte. No ano 27 AC, um grupo de pessoas, de origem indefinida, maioritariamente celtas desavindos, aborrecidos com a vida, decidiram juntar-se em certas alturas do ano para debater a natureza humana e encontrar caminhos para uma existência superior. O nome vem do Latim e quer dizer Uma Rede Sem Ordem. Não tinham indumentária, nem ritos especiais, nem grandes lengas-lengas. Não provavam vinho, nem muito menos o cuspiam de seguida. Acreditavam no Homem, na Natureza e na sua fusão como poder criativo e inspirador, e o que os regia era um simples tratado de astronomia. O fluxo do Sol. As fases da Lua. O breviário das estrelas, e as suas reproduções no céu. As águas e as marés. Tudo como marcadores de uma postura mental. Uma orientação. De tempo e de espaço. E um desejo imenso de fazer melhor, pelos que sobreviriam. Pelo futuro.
Segundo reza a lenda, estamos a falar de uma individualidade onírica, esse documento, encontrado séculos depois numa ermida ostrogoda, viria a ser a base de muitos manuais sagrados, como a Bíblia e o Aldrabão, que viriam a incentivar muitas das religiões dos nossos tempos. Nos pensamentos mais nobres desta criatura de tez transparente, funcionário público dedicado, essa trama ainda hoje subsiste, engrandecida por um universo vigoroso, e a que qualquer momento despertará, para o bem de toda a humanidade e de todos os seres vivos.
Ainda hoje lhe faz confusão os adjectivos que dão aos países, acatados às amarras de alguma religião. E quando, por castigo, houve a “Indonésia é o maior país muçulmano” fica meio desvairado com vontade de apertar o nariz a alguém. Em discussões acaloradas no café refuta toda a sua descompostura, “antes de ser rapaz ou rapariga os bebés já têm uma etiqueta”, como se viesse tudo escrito na ecografia. E por vezes ainda pragueja como quem larga um palavrão dizendo “virgem santíssima!”
E o que o desvia, e o acalma, é o seu pensamento no U.R.S.O., a imaginá-lo a rugir nos confins do tempo, quando os anos ainda não eram anos. A fazer contas de cabeça, a meditar como é que o monge cita, Dionísio, o Exíguo, se pôs a calcular a data da Páscoa cristã e de repente se estava no ano 527. Incrível como o cosmos muda. E antes disso? É tudo de ouvir falar. Como o Rei Herodes, contemporâneo de um certo Cristo.
Muito à frente, no ímpeto da muralha do tráfego, no que restava da câmara 1111.
- Vais andar a passear. És uma pessoa importante agora. Não podes pisar o risco. És um observador. O olhar do povo.
Dizia-lhe o amigo, enquanto arrancavam e o burburinho viário reocupava o óculo da câmara. Ele com certeza ainda a matutar na obliteração nazi e seguramente a dizer para o amigo, de olhos vagos, “e os Judeus são porventura alguma raça?”
De vez em quando cruzo-me com eles na rua. Se os vejo ao longe atravesso a passadeira e fico junto a estes dois amigos, como se fossem as únicas pessoas que verdadeiramente conheço e em quem confio. Já sem a cor lima e lilás que os caracteriza na imagem mas ainda com alguma peça de roupa a condizer.
No outro dia apanhei uma conversa ao telefone. Uma chamada internacional.
- Sabes, hoje abri os ouvidos e fiquei todo o dia atento.
- Sim? Conta, o que se passou?
- Alguém disse que os ursos deviam ir para a assembleia. Que deviam arranjar lá um lugar e fazer umas obras de adaptação. Não custava nada. Que eles são um assunto de estado e que deviam ser respeitados como tal.
- Não acredito!
- Sim e já estavam a atirar ideias para o ar de colocar dois botões enormes no tampo das mesas para que eles pudessem pressionar!
- Para pedir comida?
- Não! Para votarem as leis. Dizem eles que isso é o verdadeiro exemplo de democracia.
- Incrível! E o que disseste tu?
- Não disse nada. Como sabes eu só vim para ver e no final produzo um relatório, é essa a minha função. Mas gostei da ideia. Finalmente fazem alguma coisa pela natureza. De qualquer modo já todos tinham aprovado essa resolução.
Fascinava-o a ideia de ter um U.R.S.O. a comandar os destinos de um povo. E, para além de se ver acordado no seu sonho, já era um bom começo e um exemplo grandioso para restituir o bom nome às nações.
Quanto a mim, que estou do lado de cá, é uma excelente ideia. Talvez me traga o desejado descanso. Terei outras vigilâncias para apreciar e sempre posso ir variando a minha indumentária. O meu rito.

[Memória Indulgente #5 • Publicado no jornal Hoje Macau • 12 JUN 2010]

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    Jorge Luis Borges
    [nota em Fervor de Buenos Aires]

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  • Listen
  • Now, I couldn’t believe that in this very moment, faraway or here, someone isn’t thinking about me. I don’t think about it because believing just like that, there or here, any one may think about me, or believe in that tiny moment, that is thinking about me for some other reason in which I don’t believe, even thinking the opposite, will be a hard time.

  • 03.Dec
  • Cascos de rolha
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  • By Roberto Bolaño
  • My muse is following me, wherever I go or trail. She’s here ever, across this long night where years go by. Not caring about one or nothing, sickness or pain. And there’s no effort she makes to be just where we are. But Bolaño tells it much better.

  • 03.Aug
  • Para sempre também
  • O Homem do Leme é uma personagem que nasceu algures. Já se foi. Um homem sem leme. Sem vela. Um homem que vai ao sabor do vento, mas sem o provar, sem poder ir com ele. Um vento que lhe diz tudo não dizendo nada.

  • Sanus & Statua

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  • 03.Apr
  • Step over my dead body
  • The Kills: Alison Mosshart was previously in Floridian punk rock band Discount, and Jamie Hince was in the British rock bands Scarfo and Blyth Power. The duo first met when Mosshart heard Hince practicing in the hotel room above hers, and when Scarfo and Discount disbanded they struck up a songwriting partnership.

  • 29.Mar
  • She’ll come, she’ll go
  • Lady Grinning Soul” is a ballad written by David Bowie, the final track on the album Aladdin Sane, released in 1973. The composer’s first meeting with American soul singer Claudia Lennear in 1972 is often cited as the inspiration for the song. One of most underrated songs quite unlike anything else Bowie has ever done.

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  • 09.Feb
  • The stitches open
  • The Dø is a French duo formed by musician and soundtrack composer Dan Levy and Finnish singer Olivia Merilahti. The name is pronounced the same as the English word “dough” and is presumably derived from the first sound of the “Do-Re-Mi.”
    Dan said in an interview on TV that the name of the band is formed with the initials of their names. The word “dø” means “die” in Danish and Norwegian.

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  • 12.Jan
  • Love yourself
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Plurimus

Acreditamos que neste lugar tudo podemos fazer. Toda a liberdade existe por aqui. E nada mais importa.

We believe that in this place we can do everything. Freedom flows all over. And nothing else matters..

Flamma

E mais seremos se daqui pudermos ver o resto do Atlas e todo o Passado e, para além disso, uma boa parte do Futuro.

Nuntius