Um episódio recorrente em Macau, que se aprende mal se chega, é saber o que devemos ou não dizer para que não se comece a pisar um quintal que não nos diz respeito. Tarefa difícil.
O que nos diz respeito então? Se alguém comete uma falcatrua e consegue um negócio vantajoso, no limite de uma certa legalidade, mas ainda do lado de cá, isso decerto não diz respeito a quem está de fora. É um jogador e é apenas mais espertalhão do que todos os outros. É um vencedor no campeonato do seu belo pátio. Ponto final.
Há coisas que nos afectam colateralmente, que sobram de um elemento para o outro e que se arrastam até nós como as marés de um rio. A questão do trânsito, da poluição, a inflação, a eficácia dos serviços governamentais e por aí fora. O que há e o que não há na metrópole onde vivemos. O que devia haver para que essa cidade tenha letra maiúscula e seja considerada como tal e não uma aldeia em que as boas intenções muitas vezes não saem do papel ou da cabeça de quem as pensa. Aqui a humidade periodicamente ofusca as ideias luminosas de quem as produz e as coisas acabam por correr como a água opaca que vagueia por este domínio do Delta. Deixa-se andar. Ninguém vê, ninguém quer saber.
Mas há outras certezas que infectam directamente os alicerces de qualquer sociedade e que não podem ser deixadas passar em claro. O problema das instituições de saúde que são a força que nos protege, que deve estar sempre disponível ao nosso lado em caso de uma emergência, como segurança plena de uma civilização desenvolvida. E não o contrário, o receio pleno que aconteça qualquer coisa e não ter lugar onde ser curado. Depois há a questão premente da Justiça, ponto chave de qualquer estado que se rege pelo primado da lei e do Direito. A justiça, sim. Fala-se dela a toda a hora. O que é justo e o que não é. O que vale e o que fica.
Há coisas que não podem ser escritas de outra maneira. Uma delas é a realidade. Escreve-se com todas as letras e sem enganos. Existe dia após dia, sempre à mesma hora, mesmo sendo um martírio. Por um lado pune-se implacavelmente e de forma exemplar, o suspeito entra no tribunal já com a cama feita, por outro tapam-se os olhos e vira-se a cara para o lado. E o presumível suspeito pode não ser na verdade uma pessoa, é apenas o mecanismo de uma condição, uma peça estragada que se abandona sem espaço para aperfeiçoamento.
A justiça por vezes pratica um delito superior àquele que pretende condenar, evocando o juízo, essa causa nobre, para o fazer. Será que tem consciência do que faz? Será que consegue dormir à noite, descansada? Talvez não. Ou então, desatenta das suas acções, vive tranquila na ignorância de uma posição que não alcança. A virtude. Porque tanto pode assumi-la como pode em seu lugar praticar outro labor qualquer, e estar noutro campo dissonante, como se a posição da justiça fosse análoga à de um cabeleireiro ou de alguém que pinta as unhas. Como do mesmo modo se confunde um médico com um taxista. Mesmo aqueles que acham que fazem o bem muitas vezes estão equivocados e no que lhes podia sobrar de humildade e de desafio, para com isso puderem aprender, perdem-se na arrogância e na insensibilidade que por vezes têm em excesso. Para alguns o destino já está traçado.
O caso de Luís Amorim, passados três anos sobre os acontecimentos sombrios que levaram a vida desse estudante da Escola Portuguesa de Macau, estão de novo a fervilhar no ar. E por quanto tempo? Quanto tempo até que alguém lhe ponha uma tampa em cima e o atire de novo para um canto, inanimado?
Partimos do primeiro ponto. O jovem português foi encontrado sem vida na via sob a velha ponte Nobre de Carvalho no dia 30 de Setembro de 2007. De pronto as autoridades competentes emergiram ao local dando o vaticínio e resolvendo a história in loco. Sem mais. “O seu filho suicidou-se!”, como quem diz, de maneira indiferente, como se fosse a mesma coisa, “Olhe, suicidaram o seu filho!”, como se de repente esse termo se transformasse em verbo regular bem ao modo da língua maquista em que tudo faz parte de uma pequena peça de teatro, cheia de humor negro. A identidade toda de um povo toda em cima de um palco. Com palmas e gargalhadas.
E já está, esse é o fim da história. Para os pais do Luís é apenas o princípio de uma longa batalha solitária para o apuramento da verdade, que só agora, quase 3 anos depois, vê acender-se uma pequena luz bem lá ao fundo do túnel. Não se trata de obter a verdade mas, no mínimo, por todos os meios possíveis tentar compreender o que aconteceu, dando um passo que seja para lá chegar, memo que daí não se encontre um culpado.
A partir do momento em que as autoridades de Macau obstruem essa opção de imediato estão a obstruir a nossa cidadania, como se ela se movesse como um bate estacas e tivesse semelhante importância. E não se fala de uma só instituição fala-se de uma complexa rede organizada que incita para que o caso seja aglutinado pelo esquecimento. Uma ordem que vem de cima e engole qualquer coloração da verdade.
E pergunta-se, quem em Macau consegue, com um só movimento, controlar em simultâneo a policia, as autoridades judiciais, os oficiais mais graduados do ministério público, os técnicos de saúde que averiguam a precisão dos factos e ainda especialistas vindos do outro lado da fronteira que confirmam a veracidade dessa análise. E ao mesmo tempo, como se tratasse apenas de um interruptor, calassem de rompante a opinião pública com um silêncio de cegos. Quem tem esse poder? Ou quem por essas alturas se deixa controlar de tal modo?
Adivinha-se que é alguém para quem a vida de um jovem é um mal menor de uma figura muito mais complexa e viciosa. E nada que se faça a irá recuperar, ninguém vai trazer o Luís de volta e pode até acontecer que a verdade nunca venha à tona da água e fique para sempre enevoada por entre as mãos ímpares – ou os pés! – de quem cometeu semelhante acto. Mas se voltar acontecer, de quem é a culpa? De quem não preveniu, de quem esqueceu? De quem teve medo de trazer o assunto para o quintal, porque é sempre preciso manter as aparências? São tudo questões no ar que vão e vêm com o vento.
Mais questões. As autoridades portugueses presentes no território devem ou não questionar, devem ou não querer saber mais? Ou levadas pela harmonia das gentes, de uma terra que se diz de letra maiúscula, se deixam estar de leque na mão. À espera que chegue o navio para o regresso.
Se de um dia para outro os telejornais trouxerem de novo uma notícia idêntica talvez alguém volte a recordar o nome de Vítor Silva, levado à queima roupa em pleno dia e que não passa de mais um dos números da justiça por apurar e de quem hoje já ninguém sabe da história. E pergunta-se. Calamo-nos ou continuamos a falar? Acredito que muitos devem estar a pensar que talvez seja melhor baixar os braços e absorver o ar puro de uma terra que afinal é de fantoches e não se quer de outra maneira. Ou simplesmente fazer como essa personagem chamada Leocardo que diz as coisas e não dá a cara, por que a tem enfiada na areia. Preta.
E assim a vida continua.
[Memória Indulgente #4 • Publicado no jornal Hoje Macau • 28 MAI 2010]














2 Comments
Bom artigo, António. Importante que alguém escreva sobre este assunto. Ficamos à espera de mais. E não percas tempo com figuras como o Leocardo, não existem!
Até quando essas forças vão continuar a actuar impunemente?
Nós pais do Luís estamos determinados a lutar para que se faça JUSTIÇA.
Não compreendemos como as autoridades portuguesas podem ignorar estes casos, qual é o seu papel?