Não vivo na Ásia. Quero sempre pensar que estou apenas de passagem. Como todos. Mas eu vivo mais para cima, mais a Norte. E o norte sabe sempre tão bem.
- És portuguesa? – perguntei-lhe.
Ela não respondeu.
- Não és portuguesa, o que podes ser? Do you speak english? – quis continuar.
O silêncio manteve-se. Mas quando virou a página do livro que estava a ler, os seus olhos perderam-se por um instante, nos meus. E sorriu, leve, já sem olhar.
E sorriu de novo, nos meandros da página seguinte. Com mais intensidade. Eu ali a um pouco de distância, dois passos away. Não era chinesa, nem japonesa, nem tailandesa, isso podia ver-se pela sua cara. Podia ser imensa coisa.
Em todas as páginas, debruçava o seu tempo no meu, cada vez com menos pressa.
O livro era em português, todavia. Mas isso não queria dizer muito. Podia coleccionar letras, a fugirem das palavras que não compreendia. Ler não quer dizer nada, se não se ouve. E eu não estava a ouvir um sopro que fosse. E estava tanto vento lá fora.
As páginas andavam para trás e para a frente. Desnorteadas.
Eu sorria. Desde o princípio de mim, que eu sorrio.
- “Lês?” – disse ela. Imaginei eu.
- “Leio!”
- “Podes ler-me uma história?” – E eu li-lhe todas as histórias.
Nessa altura, sem imaginar, estávamos de mão dada. Numa só. Ela ao meu lado. A caminharmos na rua. Um sol bonito. Um céu refrescante. Os anos talvez já tivessem passado.
Não falámos, porque eu não sei falar. E também não sei dizer. Eu sei apenas sorrir. E olhar.
E o que me pareceu foi que ela também não fazia mais do que isso. E quando o percebi, beijei-a.
E beijei-a de novo.
E as nossas línguas conheceram-se, finalmente, numa das duas bocas.
A minha sei que é portuguesa. A dela não sei, porque, na verdade, não importa. Se não é preciso falar.
Língua portuguesa
Diz-se para se ouvir. Mas em certos modos, épocas, construções químicas, esse processo não se realiza. Existe apenas a sensação. O desejo. O sabor daquilo que não se explica por palavras. E como tal, não pelo dizer ou pelo ouvir. Os olhos fecham-se e um sentido contundente do que somos, e que se reflecte num outro ser, ataca-nos sem mais lembrança. Sem mais representação. E tudo isso é um transporte para uma felicidade em pleno. Uma espécie em vias de extinção.













