Olhar para um palácio

A História mesmo por becos e veredas merece sempre ser contada. Cheguei ao território de Macau há demasiado tempo. Tudo passou de repente. As caras, os factos, as viagens. O que resta é o quotidiano, que se repete a cada minuto, incessante, com a mesma cadência. Como um rosto que se adivinha com a teimosia de quem olha sempre para um palácio.

By Antønio Falcão

on 30 Apr 10

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Fecho os olhos e vejo o sossego a passar lá atrás. Um ínfimo vazio que se enche em pequenos tragos, muito lentamente, e aos poucos a imagem cheia de desejo de se ver reconstruída.

E é ela que diz.

O ondular da água azul-turquesa, limpa e transparente, sobre o chão de areia branca, na espessura de três ou quatro metros, a reluzir. Quieto. Podia mesmo dizer que sorria, a areia no fundo do mar, com todo o nosso espanto. Ou o dos peixes. Em cima, talvez a trezentos metros da praia, a plataforma flutuante feita de troncos de madeira escura. Imóvel. Mesas, cadeiras, um bar numa das extremidades e a sombra dentro de um copo gelado. Calor, sol, um céu desmedido, com o horizonte a circular todo o olhar. O tempo em suspenso cercado de encanto por todos os lados. O centro do mundo. A semente de uma era.

Seria preciso ter a certeza, para ser fidedigno, mas basta-me a ideia. Tinha de abrir a arca, ver as fotografias e o que restava de tudo isso, os diários de bordo, para juntar todas as peças do puzzle, mas não será fundamental. Esse bar aquático tinha o nome de um bairro em Honolulu, ou qualquer coisa parecida. A ilha ficava no meio das Filipinas, lugar remoto em que se podia ir apenas de barco. Até lá a escolha de uma viagem, com origem na capital, apertada dentro de um táxi-aéreo de quatro lugares que se entornava com o vento. Foi assim a minha ida para a maternidade. Longe, naquela plataforma, sem sobressaltos e sem dor, assentava o lugar do meu nascimento e, com um pestanejar, o berço do que me estava prometido. Espanto por perceber como, naquela fórmula, de um momento para o outro, o antecedente deixava de existir. Tudo ficara liso, sem noção de factos, datas ou acontecimentos. Susto pelo indício de como alguém podia fulminar assim tudo o que estava para trás. Não recordava os dias passados nem as imagens que tinha ao espelho. Ficara sem rosto e sem o registo, perdera a lembrança, mas tinha ganho uma identidade. E para a frente tudo era limpo.

Meses antes, três anos depois de ter chegado a Macau com um bilhete de ida, decidi regressar a Portugal. E o processo repetiu-se. Deixei o meu emprego, preparei a bagagem e disse adeus àqueles com quem convivia. Os meus colegas fizeram-me um jantar, juntaram-se e ofereceram-me uma prenda, um relógio, para eu não os esquecer. Para não chegar atrasado. Ninguém no fundo estava triste ou contente. Na verdade parecia que estávamos todos a brincar às despedidas e que aquilo tudo era um prelúdio para coisa nenhuma. E foi. Porque mesmo depois da viagem marcada, duas vezes adiada, alguma coisa me embutiu ao calor desse Verão e fui ficando. Para sempre. E ainda bem, porque se tivesse regressado nessa altura não poderia dizer agora que alguma vez tivesse vivido em Macau. Porque não tinha até então. Tinha simplesmente passado. Em delírio. Uns tempos.

Sem esforço arrastei-me até ao fim desse ano e até ao seguinte na promessa de um futuro melhor. Nos primeiros meses deu-se o meu nascimento, nesse interregno nas Filipinas, como quem vai a um hospital no estrangeiro, arrancar uma hérnia ou tratar uma rotura, e experimenta o período mais feliz da vida adulta.

E voltei. Na verdade, cheguei como se fosse a primeira vez. Consertado.

À minha espera estava um posto no Palácio do Governo. Nas funções que me eram destinadas estava incumbido de seguir o último governador de Macau para todo o lado e registar, com a minha câmara fotográfica, até ao derradeiro minuto, todo o trajecto da despedida. Até à saudação final, a última luz do Império. Portugal deixava o território ao bater do final do século e eu tinha caído dentro do caldeirão. Não levava a bandeira ao peito. Estava num país distante e o mundo não se extinguia ali. Era o final da festa. Um ano depois, a cada passo e a cada encenação, no mesmo acto de sempre, as coisas aconteciam pela última vez. A História vestia-se despindo-se.

No palácio tinha um lugar ao pé dos livros, junto às estantes de madeira escura da biblioteca. Uma agenda, um horário. Quando as senhoras estavam fora o F., colega chinês, juntava mais uns H’s a todas as palavras feias que a língua portuguesa é capaz de regurgitar e falava de mulheres sem parar. No dia-a-dia, a comitiva do General espalhava-se pelos quatro cantos da cidade, deslocando-se a todas as ocorrências. Os aniversários, os actos comemorativos, as reuniões; as vistorias às obras, aos asilos, às instituições. As inaugurações, as recepções presidenciais, as discussões, as missas e, o que se tornou uma formalidade, os funerais. Num deles, à queima roupa, o corpo saiu da cerimónia já como encomenda postal: “Este lado para cima!”

Tratava-se de uma época acima de tudo festiva e os jantares e as festas repetiam-se com toda a comunidade. Toda a gente bebia e todos regressavam a casa de outra cor, apertados num táxi-aéreo. “Você faz parte do grupo de pensar, não é verdade?” – ouvia nas apresentações de cumprimentos quando alguém se ia embora. Era mais uma peça esquecida de um xadrez nunca utilizado a brincar às despedidas. Click! A sala verde, a sala amarela, a assembleia. Os jardins. Os ódios de estimação, aqui e ali, os bons e os maus, os portugueses e os chineses. Os jornalistas, os telefonemas para a televisão. “Isto sim, isto não. Isto nunca!”

Tudo a acontecer, sem tempos de espera, sem plataformas. Sem árbitros. Foi assim até ao dia final. Uma folia. A preparar o futuro, a lista de contactos, a restauração dos quadros que regressavam como cromos de banda-desenhada. A recolha dos discos rígidos. Os arquivos. As fundações. Tudo faria falta num futuro promissor que se prolongava para a Pátria, depois da transferência de poderes. Um momento único.

A poucos se pode conceder essa experiência em que a História se torna Terra de Ninguém. Um palco em que os actos que se seguem não vêm escritos em parte alguma. Não há argumento. Vai-se de modo tanto intuitivo como emotivo pelo observar das nuances da escuridão, à procura de uma lanterna. Ou pelo grito dos pássaros. No ondular do mar tantas vezes navegado.

Nos primeiros momentos do dia 20 de Dezembro de 1999, enquanto o General abandonava Macau, nos edifícios públicos os símbolos portugueses eram depostos com efusão, como se a espera tivesse sido longa demais e a justiça, num registo ficcionado, de anos de diferenças, finalmente se estivesse a desenhar, pelas mãos das gentes que ficaram ao leme dos desígnios da sua própria terra. Essa foi a primeira linha que se escreveu de modo espontâneo com o coração ainda quente e com a esponja da celebração na mão. “Nós somos isto. Isto já não é o que era. Mudou!”, era a vontade de dizer. Mas durou pouco, a insistência na aglutinação ao grande continente, mesmo aqui ao lado. A diferença, a herança, era verdadeiramente o que ficava, como bandeira do território.

Eu fui até ao último passo, só para averiguar, não precisava de fechar os olhos para ver a imagem a ser desconstruída e ver o despejar do copo. O mar escuro. A areia preta. Os carros negros em efusão, um frio de rachar, uma da manhã – hey! – e a plataforma do prelúdio de coisa nenhuma. Semelhança maior deve ter-se registado com Salgueiro Maia depois de deixar Marcelo Caetano no avião a caminho do Brasil na ressaca do dia 25 de Abril de 74, enquanto acendia um cigarro. “E agora, que já está?”

Mas o plano tinha sido desenhado à risca, para a conquista de outro espaço. O tapete mágico, no entanto, deixara de funcionar. E sem os cordelinhos para mover a máquina já não havia nada a fazer, a não ser esperar. Nem o magnata dos casinos podia salvar o conto, ou a falta de transparência ou confiança. Há quem lhe chame simples amizade.

Alguns dos que ficaram, no que lhes era seu hábito, e continua a ser, sem rancor, esperaram para ver para que lado se entornava o vento. E desse ponto, ainda no ar, prosseguir para o desenho apertado da aterragem no melhor destino. O lado em que se sentasse o poder. Mas o gosto ficou insonso. Da História ficou uma angústia. Do divórcio com o passado faltou o desfecho. E quando o General, escovado para a sua quinta em Alcácer Quibir, deixa apenas os rumores de uma anedota mal contada, nessa gente, sedenta de festas e cheia de autonomia, ficou o ínfimo sentimento de abandono, por entre os troncos de madeira escura de uma certa consciência pesada. Sem vazio. Nem os relógios serviram para reavivar a lembrança de cada um, porque não funcionaram. Eram feitos ali ao lado. Como os livros da História que não se fizeram. Porque já não existia. Como todo o passado do qual não se falava mais. Apenas o F. ficou na sua língua especial, a dizer tudo o que sabia sobre as mulheres. Que nunca viu.

“Órfãos”, foi a palavra em que pensei, quando dez anos depois me vejo na mesma situação a carregar no botão e a seguir de novo o General, sem tirar nem pôr. O tempo antigo de outrora todo ali à minha frente. Sem hiatos. Descomprimido na noção dos factos, nas datas e nos acontecimentos. Sem barões assinalados. Um enorme espanto pelo indício de como alguém podia fulminar assim todo o presente e fazia recordar os dias passados e todas as imagens que tinha ao espelho. O rosto e o registo. Ganhava a lembrança mas num segundo perdia a identidade, que se ia no reluzir de um abraço. Sem o azul-turquesa, sem o fundo do mar e o chão mestiço, que não parava quieto. Sem sol, sem céu, com todo o horizonte dentro de mim. O fim do mundo nos excedentes de uma era.

Aqui, neste pequeno bairro de Honolulu.

Dias depois, passei por uma agência de viagens para comprar um bilhete de ida. Mas disseram-me que a plataforma já lá não estava, que tinha vindo um tufão e a levara, sem aviso prévio, sem jantares de despedida. E assim fico. Por mais uns tempos. Só para confirmar que talvez não valha a pena. E isto sou eu que digo, não é para contar a ninguém.

[Memória Indulgente #2 • Hoje Macau • 7 MAI 2010]

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