A autoridade da concorrência

Não é Ring Joid. Desta vez é Antønio Falcão e a Memória Indulgente. Que regressa às páginas do jornal Hoje Macau. Estamos no dia 23 de Abril de 2010. Mais virá. Sem limite.

By Antønio Falcão

on 23 Apr 10

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Não quero fazer a conta dos anos que passaram. Nunca fui bom a analisar os resultados da matemática. A debater-me com as certezas. Fico pelo cálculo mental imediato onde tudo é ainda possível. E basta-me isso, uma sobra de esperança, como exercício.

Estava escuro. A noite suavizava o campo. As árvores da serra suspiravam com a aragem do Verão. Um vício que lhes nutriu a alma para sempre. Não sei quem terá chegado primeiro, se nós, se eles. Nós, miúdos sonhadores com tudo por experimentar. Eles, dois ou três, de fora, que no instantâneo se desenharam apenas na figura de uma mulher. Cabelos claros, silhueta esguia, não sei quê de sublime. Fantasia de cinema. Em situações como esta, em que o breu toma conta da circunstância, há um genuíno desassossego. Ou uma estrela a passar no céu. Conversámos assim a uma certa distância sem nos distinguirmos claramente, num mútuo respeito pelo desconhecido. Tempo quente em surdina. Com o remoer dos grilos a abraçar o silêncio. A sessão da meia-noite na copa das árvores. O nosso sorriso malandro. Filme série B. Negro. Desfeito no momento em que pedi por um isqueiro e a sua mão meio envolta em perfume e chama me acendeu o cigarro. Eu que naquela altura já tinha deixado de fumar quando nem sequer ainda tinha idade para começar.

E ali, por entre a sedução e o receio, que a nossa estatura não indicava, a luz dava término a todo enredo. De um extremo para o outro os papéis ruíam. A tensão a esfumar-se para dentro dos pulmões e a pegar fogo à cena. O realizador a perder a vontade e a desaparecer. Antes podia ser um mundo de imaginação, qualquer coisa dúbia, qualquer ideia indigna. E um segundo apenas ou nem isso a ver-se atirada ao chão com a luz. O acender da clarividência, como a divina aparição. A ver-me a erigir uma lápide no vaticínio rigoroso da face e da identidade que nem a nossa lambreta podia contra-testemunhar. Nem uma reza.

Porque me lembro disto? Porque o trago comigo no lugar mais frontal da memória, a confundir-se a toda a hora com os néones da cidade? E sempre tudo inconsciência, tudo conta de somar. O resultado, não sou bom nisso, foi um ponto de viragem. Como se tivesse morrido ali. Todo. Não sei porquê, não sei por quanto tempo.

Era o meu mundo e o outro. O outro que nunca soube pisar com orientação. Sempre em fragmentos. Aos rombos. Sempre aos tropeções. Porta atrás de porta. Montanha atrás de montanha. A querer esconder-me atrás da evidência, com medo da prova dos nove. E terá sido quase uma regra, esse pau de dois bicos. A procura de uma luz, para ver, mas a deixar-me, por isso, ser visto. A queimar a mão, como os espanhóis, que precisam sempre do tacto para tirar conclusões. Não que fosse apanhado em algum flagrante delito. Eram – são! – normalmente coisas simples que tornava, por aventura, descuido e prazer, complicadas.

Queria começar esta página. Dizer ao que venho. Só com a simples importância de revelar. De acender o isqueiro, que comprei para o caso, e deixar a chama a correr. Não há copa de árvores. E os grilos já se foram. Mas por mais pequena que se faça a luz. Por mais escasso que seja a essência de pensar. Há um começo lá ao fundo. Uma origem.

Escrevi para este mesmo jornal, semanas a fio, sob uma outra designação. Foram vários anos. Não, não estava a fugir de mim, estava apenas a vestir outra pele. O impostor que diz tudo e que apanha tudo o que deixa. Sem medo do mais negro dos negros e versado em filmes de A a Z. O nome próprio fora retirado de um escritor. Autor favorito do irmão que nunca aparece de uma personagem de um livro de culto, que li e reli. Ring Lardner, um colunista de desporto americano dos anos 20, famoso pelos seus contos satíricos, que é apenas a décima parte do meu lança-chamas. O apelido veio da água que bebi na fonte dos meus headphones. Marca Joid. Não interessa agora, já passou, e ninguém deu por isso.

Ao que venho?

Venho tentar salvar um pouco da memória. Exercitá-la. Mesmo que faça disto um recreio onde a realidade pode estar sempre em causa, é também uma procura da verdade, na lembrança das coisas que não foram feitas.

Podia ter começado com o exemplo do aeroporto, mas não tinha a certeza se era o melhor, creio que nunca terei. É importante o começo, a primeira impressão. O primeiro encontro, o primeiro amor. Mas sobretudo, não esticar demasiado a mão e adulterar o sensibilidade das coisas. A sua solidão. Os aeroportos são espaços neutros onde tudo converge e flutua. E como espaço de persistência não existem, são uma realidade impermanente. Apesar da estrutura, apesar das paredes, e de toda a mente criadora que lhes deu vida e os milhares de outras mãos que os colocaram em pé.

Ponto de partida para uma viagem. Ponto de chegada. De transição. Como tudo aquilo que fazemos. Um entretanto. Alguém que se acaba, alguém que começa.

Nesse pequeno contra-tempo, ainda com um eco do calor, procuramos inspiração, procuramos uma força divina que nos dispare. Como um milagre para coisa nenhuma. Para o céu. Limpos de ideias e de espaço. O aeroporto é a memória que concorre minuto a minuto com as manobras da consciência e os néones de qualquer cidade. O desejar. O esperar. O existir. Todos eles membros da nossa autoridade. Atacam as certezas com um golpe de inesperado. Porque vim. Porque fiquei. Porque estou ainda. São o produto das equações do imediato. Existe apenas a impossibilidade de estar noutro lugar por mera virtude nuclear, nas árvores da serra, mas também porque mais uma vez a matemática assim o concluiu.

No outro dia, nessas vantagens que o mundo em cadeia permite, pus-me a conversar com alguém de quem não sabia há décadas. E continuava sem saber por não me recordar de nada. A falta de uma memória é como estar a surripiar a realidade de outra pessoa, a vestir a pele de outra identidade. Aos rombos e aos tropeções. E varremos tudo. Percursos, aniversários, o dia que estive em casa dela, ela na dos meus avós. Dias na rádio. E nada. Um buraco negro de coisas que fiz e que não existiam mais em lado algum. Mas depois, dias mais tarde, percebi que estava erradamente à procura das singularidades de uma rapariga loira e que esse era o detalhe que era preciso corrigir para a luz se acender. E a lambreta lá estava de novo como uma espécie de cigarro perfumado. Moreno.

É uma questão de sintonia, nada mais, a que mais tarde vamos pegando os fios. Somos isso. Todo esse movimento. Os aeroportos. Os grilos. A noite a suavizar o campo. É um caminho de incertezas e coisas vividas. Não podia ser mais verdade, seremos sempre assim, de certo modo efémeros, mas de todo abertos para o mundo e para as coisas mais belas, em que cada ponto de viragem é a sua representação sem tempo. Uma certa paz, uma certa ilusão, um certo paraíso, semeadas na fronte. Talvez a total escuridão e um espanhol, cá dentro, a querer sempre saber mais do que os outros, a querer tocar em tudo o que não vê. Porque não sente e não existe.

É a isso que venho. Querer enganar-me na memória que me aguenta.

Porque há sempre uma esperança. Em guarda. Não tão vã como isso. De uma plenitude sem retorno. Que nos espreita. Que nos vigia. Que nos alimenta o espírito. Como uma luz apagada.

[Memória Indulgente #1 • Hoje Macau • 23 ABR 2010]

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