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	<title>Hybridus</title>
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	<description>On the words that will tear us apart</description>
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		<title>Até logo</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 19:10:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ring Joid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rudimentum]]></category>
		<category><![CDATA[escritores]]></category>
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		<category><![CDATA[vidas]]></category>

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		<description><![CDATA[Conrad foi educado na Polónia ocupada pela Rússia. O seu pai, um aristocrata empobrecido de Nałęcz, foi escritor e militante armado, sendo preso pelas suas actividades contra os ocupantes russos e condenado a trabalhos forçados na Sibéria. Pouco depois, a sua mãe morreu de tuberculose no exílio, e quatro anos mais tarde também o seu pai, apesar de ter sido autorizado a voltar a Cracóvia.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há <a href="http://www.greenwood.com/catalog/SJC%252f.aspx" target=blank>pessoas</a> que acham que<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Joseph_Conrad" target=blank> Joseph Conrad</a> era americano, que era amigo do <a href="http://www.boulderbookstore.com/Modern.html" target=blank>Jack Kerouac</a> e que esteve com o William Burroughs no Cairo a fumar ópio, enquanto viam passar para trás e para a frente a figura etílica de Indiana Jones. Na verdade Kerouac tinha dois anos quando o &#8220;americano&#8221; morreu. É assim que é representado o mundo. Com chicotes, com pulsos de memórias e de conhecimento que, aqui e ali, se vão aprendendo. Influências disformes que sobram da literatura e que entram no nosso corpo transformando o fluxo sanguíneo no mundo real.<br />
Disseram-me: &#8220;&#8230;estávamos para aqui a discutir se o Joseph Conrad tinha nascido em Varsóvia ou em Cracóvia. Apostámos uma grade de minis.&#8221;<br />
Enganaram-se ambos, Jósef Teodor Konrad Korzeniowskie, que para muitos foi considerado o maior escritor em língua inglesa, nasceu em <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Berdychiv" target=blank>Berdychiv</a>, na altura Polónia sob administração russa, hoje em dia uma cidade ucrâniana. É para lá que eu vou agora&#8230; recomeçar tudo de novo.</p>
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		<title>Amanhã submerso</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Jul 2010 13:22:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antønio Falcão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rudimentum]]></category>
		<category><![CDATA[anão]]></category>
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		<description><![CDATA[Os casos de polícias são verdadeiramente casos que envolvem uma organização de termos e burocracias, de formalidades, mas que formam em todo o seu novelo uma intenção. A vontade de desvendar o caso ou a de o levar ao esquecimento, para que desapareça dos olhos da sociedade e se iliba em nome de uma memória colectiva dissipante. Está sempre a acontecer.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Às sete e meia estava na casa de banho. Não é que isso importe, mas foi o que disse à Polícia, esses bandidos, quando mo perguntaram. Claro, substituí as palavras por outras. Disse-lhes: “Estava a urinar!”, foi isso que me saiu da boca. É incrível a pontaria que às vezes têm para estas coisas, os detectives, mas é verdade, olhei para o relógio, antes ou depois do acto em si, e lá estavam as sete e meia a passa, antes de me olhar ao espelho e achar que não estava com boa cara. Gostava de ser assim, pontual, como as horas. “Foi na casa de banho de uma livraria”, foi o que lhes disse mais. Descem-se dois ou três lanços de escadas e entra-se numa porta à esquerda, Estava uma fila de mulheres e um homem à espera. E eu perguntei ao homem se ele estava à espera de alguma coisa, se estava à minha frente ou não. “Ele é a minha única testemunha de que eu estava lá a essa hora”, dissertei eu aos olhos do agente que me olhava na ponta de uma esferográfica. Mas ele era estrangeiro, espanhol, catalão, basco, qualquer coisa, para o descobrir vai ser lixado. “É de todo impossível encontrá-lo!”. E se o encontrassem, decerto não conseguiria lembrar-se que seriam sete e meia quando eu passei por ele e me enfiei na porta à sua frente. “Rosto largo, bolachudo, óculos, e uma barba rala, era o que lhe compunha a face”. E não importa. Não importa mesmo nada. Nem ele nem o que eu estava a fazer nesse momento com a noite a entrar.</p>
<p>Eles queriam à força que eu criasse um álibi, queriam à força ir para casa e acabar com aquela história, dizer que tinha sido “morte instantânea”, ou assim, mas eu não estava para inventar, estava ali para dizer a verdade toda e somente a verdade, nem mais uma letra. O juramento tinha sido feito, como nos filmes, podiam ir buscar um detector de mentiras se lhes desse para esse lado. “E foi depois disso que estive com ela, uma hora mais tarde, talvez.” A cara do meu inquiridor não deixava enganos, quase que se podia ver um pingo de mostarda a arrastar-se pelo nariz afora, como se eu estivesse a dizer alguma barbaridade, a discordar do seu raciocínio só porque não tinha mais nada para fazer. A fúria acordava-lhe o pescoço e mudava-lhe a cor das veias, causando-lhe um engarrafamento mesmo ali no cruzamento do juízo. Eu não lhes pedi o que quer que fosse, chamaram-me para depor e era isso que estava a fazer. Não estava a querer distorcer os argumentos que já estavam definidos, nem nada. Factos verídicos, o que fiz,  o que não fiz; o resto, o que ficou por fazer, já não era para ali chamado.</p>
<p>“Homem, isso é impossível, às sete e meia foi a hora a que ela desapareceu!”, e estendeu-me para a mão uma folha cheia de arabescos, onde se encontravam descritos, numa linguagem tauromáquica ou vinícola, uma série de dados técnicos, eram as análises feitas pelo departamento de medicina legal. Depois uma resma de fotografias, o chão, uma repetição de vários ângulos de um espaço semi-circular traçado a giz. Sem corpo nenhum. Compreendi que me queria explicar que aquele era o local onde se deu o sumiço. Realmente no meio do traço, numa parte mais escura da calçada, depreendiam-se os restos do que poderia ter sido uma fogueira. Testes de carbono e ADN eram as provas mais válidas e não deixavam margens para dúvidas. Era daí que lhes vinha a irritação. A vontade de me devorarem à chapada. E não deixavam de ter razão, a pessoa era a mesma, não dava para haver enganos. Física e química numa folha de papel. Numa imagem. Nas fotografias da morgue. Aqueles olhos despertos para tudo o que os rodeava falavam por si. Estavam lá na fotografia, estavam lá como os vi, estavam lá como eles os descreveram. Sim, era a mesma pessoa. Mas não às sete e meia.</p>
<p>Repeti-lhes de novo. Essa parte do relógio, desta vez com indizíveis pormenores, e os eventos que se seguiram, que faziam parte do fragmento em que eles não acreditavam. E quando lá chegava eles começavam a coçar-se à minha frente, quase que se despiam, e a espumar da boca, enjoados de todo. Com sarna. Não podia dizer mais, nem dizer mais alto, nem dizer com os meus olhos mais abertos; as mãos fechadas, murros na mesa, ou usando uma série de sinónimos ou uma linguagem metafórica. Foi isso. Aconteceu. Tudo para lá da hora do rapto ou como lhe querem chamar. Combustão humana espontânea, se quiserem. Nem sei porque é que foram dar com esse minuto, essa certidão. Ainda lhes perguntei sobre o fuso horário, em que hora viviam, mas nem isso me valeu. Eles sabiam muito mais do que eu.</p>
<p>E o que foi? Subimos a rua, enganámo-nos no caminho, voltámos para trás, subimos por outro lado, descemos, e eu a criar sempre uma nova imagem, a cada passo, uma imagem de escreve/apaga. Uma imagem que assim que era vista, era apagada. Com novos nódulos, novas cores, novas fórmulas. E era isso. O tempo não contava, o tempo meteorológico. Dez, onze, onze e meia. Meia noite. Os espaços iluminavam-se à nossa passagem, as mesas, onde nos sentávamos, enchiam-se de luz. E não era preciso dizer tudo, bastava o ver; o abismo de um olhar profundo que não se agarrava. Ia e vinha. Ia e vinha. Ia e vinha. </p>
<p>O que foi? Não sei bem. Acredito num mundo de sonhos. Acredito em histórias de fadas e duendes. Em sapos e em príncipes. Perco-me nessa virtualidade do sonho onde tudo se faz. E depois perco-me. Dentro do meu mundo fantástico que se abre durante o sono há sempre alguém que não me deixa andar. Por exemplo, o dono de uma tasca, um bar numa viela escura, onde vou sempre, não me deixa beber a partir de certa altura. Nos meus sonhos esse homem acha que se bebo mais fico louco. E ele não me quer assim. Tem esperança que algum dia todo eu me transforme e chegue lá.</p>
<p>E era isso que estava a tentar explicar àqueles outros homens que envergavam a mão da autoridade, e dizer-lhes que aquilo não era sonho nenhum, que o que aconteceu, aconteceu do lado de cá. Uma história a sério, não era uma pena a voar dentro de um livro, infestado de dragões e unicórnios e outros bichos fantásticos, no mundo em que acordamos e que percorremos. Sim pode ter desaparecido, pode alguém ter feito uma fogueira nesse mesmo sítio e ter-se deixado ir pela rua acima. Mas não naquela hora, não no momento provado pela realidade dos factos. Não no momento em que eu estava na casa de banho da livraria a aliviar-me da pressão urinária. Era só isso que lhes queria fazer entender. O resto não importa. O resto que se lixe. Só a verdade interessa.</p>
<p><small>[Publicado no jornal <a href="http://www.hojemacau.com" target=blank>Hoje Macau</a> em 8 de Julho de 2010 • Versão adaptada de um texto de Ring Joid de 2006 intitulado "Pistola Viciada"]</small></p>
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		<title>Romance histórico</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Jun 2010 17:13:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antønio Falcão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fabulaz]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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		<description><![CDATA[Esta é uma história perdida, que foi ficando na gaveta e que moveu outras vontades. Os nomes eram outros. Mas os nomes não tinham importância afinal, por pertencerem a gente pequenina. Agora tudo se levante e chega como novo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>-Quoyle *?<br />
Do outro lado nada. Só um silêncio que se desdobra aos poucos. Quatro, cinco segundos e ninguém na outra extremidade da linha. Talvez um ruído de fundo. Um rádio ligado, esquecido, uma motorizada a passar na rua, em esforço, o zumbir de um ar-condicionado, que a querer imitar um relógio parece pingar os segundos, um por um. Todos estes sons misturados e muito leves, quase surdos. Como se nada fosse.<br />
De repente.<br />
- Wei? – É assim na língua estrangeira, daqui, que na verdade não é estrangeira coisa nenhuma.<br />
O que vale na escrita, apesar da seriedade que encerra, é que se pode sempre brincar com ela, podemos esticá-la até ao seu limite, cortá-la aos bocadinhos e dar-lhe um outro sentido, e por essa razão é possível ter uma tradução instantânea. Todo o diálogo que se segue passou-se em chinês. É verdade. As minhas relações comerciais e o meu vício no jogo, sempre com relativo sucesso, ao longo de todos estes anos tornaram-me hábil na língua nativa desta ilha. Começando pelo calão, que é como se entra, o resto veio com o tempo e agora não me é difícil compreender mesmo o mais complicado dos sotaques. E para além disso já arranho quase todos os dialectos que se alastram por aqui.<br />
- O Quoyle?<br />
- Quoyle? Não há aqui ninguém com esse nome. Não está cá ninguém. Sabes que horas são?<br />
- Sei, é tarde. Mas isso não quer dizer nada, pensei que ele estivesse aí, que estava sempre aí.<br />
Eram quatro e meia da manhã.<br />
- Pois, mas não está, não conheço. Com licença.<br />
E desligou.<br />
- Sim?<br />
- Sou eu outra vez.<br />
- Tu? E quem és tu?<br />
<a href="http://joid.bloomland.cn/wp-content/uploads/2010/06/Quoyle_s.jpg" rel="lightbox[1578]"><img class="size-medium wp-image-1580 alignright" title="Quoyle_s" src="http://joid.bloomland.cn/wp-content/uploads/2010/06/Quoyle_s-221x300.jpg" alt="" width="221" height="300" /></a>Disse-lhe o meu nome. O rádio ligado estava na estação portuguesa e dava as ocorrências que chegavam do outro lado do mundo, pontes, tristezas, súplicas femininas. Vinham por um fio muito ténue e por entre essas vozes distantes quase que se conseguia ouvir o brilho artificial das luzes. O homem do outro lado respirou umas quantas vezes. Piscou os olhos depois disso. Compreendia eu.<br />
- E porque queres falar com essa pessoa a esta hora, não podes ligar amanhã? Não tens o telemóvel?<br />
- Já tentei. Está desligado. Tem de ser agora, queria perguntar-lhe uma coisa. Preciso de saber se ele quer entrar numa história.<br />
- Uma história? Que história?<br />
- Uma coisa que estou a escrever. Uma espécie de romance histórico mas mais curto, sem tantas personagens. Só com uma ou duas.<br />
O meu parceiro do outro lado da linha estava a ficar entusiasmado com a conversa.<br />
- Para um livro? Pensei que os romances históricos eram escritos com personagens da História que já morreram há muito tempo. A glória dos Soldados, a astúcia dos Pioneiros, o ardor dos Reis. É isso que eles vão buscar. Depois misturam tudo com outros episódios lavrados na cabeça de quem os escreve e já está. É uma receita simples, é como uma sopa de fitas, é só juntar água. Eu sei disso tudo. Aqui passo o tempo a ler  e é o que gosto mais de fazer.<br />
- Trabalhas aí?<br />
- Sou o homem da limpeza. Faço o meu trabalho em vinte minutos e o resto do turno, que devia durar duas horas e meia, passo-o a ler. Era isso que estava a fazer agora. Leio de tudo. Tudo o que consigo apanhar. E acredita que ninguém se queixa, deixo tudo limpinho.<br />
- Tens uma bela vida.<br />
- Faço por isso. Só temos uma para viver, não é? É preciso aproveitar e fazer o que é bom, o que vale a pena. Se estás a escrever um livro, só te posso dar os parabéns.<br />
Deste lado o quarto está vazio e cheio de pó. Uma ventoinha roda no tecto. Há  um relógio que pulsa o ar frio. Tenho pouco mais de trinta e estou sentado numa mesa de jogar às cartas, daquelas de feltro verde. A única coisa que está aqui em cima da mesa é um livro. De vez em quando olho para ele. O título na capa com letras gordas. “Senta”. Se o abrir sei muito bem o que está lá escrito: “senta senta senta senta senta senta&#8230;” repetidamente, página após página. Sempre que o fecho dá-me vontade de me pôr de pé, como agora, mas não o faço. Suspiro em vez disso. E o livro muda de título. Agora chama-se “Morre”. Consigo adivinhar o que vem de dentro: “morre morre morre morre morre&#8230;”. Ouve-se um galo a sufocar lá fora. Ainda tenho o telefone na mão. Continuo.<br />
- Para dizer a verdade, isto não é um livro. Nem é feito à semelhança de um romance histórico tradicional. Ainda não sei bem o que é. Dei-lhe essa designação porque é mais fácil desse modo desenhar-lhe uma face. Depois logo se vê. Vai-se por aí fora, não é? Vamos perdidos aos encontrões por aí abaixo. É isso que dá a força à escrita.<br />
- Mas ainda não percebi porque é que telefonaste para aqui. Esse livro tem pessoas reais, coisas verdadeiras, ou é uma obra de ficção na íntegra?<br />
- De uma ponta à outra é tudo inventado. “Íntegra”? Ora aí está uma palavra que eu não sabia que compreendia. Mas é isso, tudo o que se escreve, baseado ou não no real, é criação. Não se pode reproduzir por palavras uma coisa do passado, nem o que está a acontecer. É preciso tomar uma  posição. Mesmo se estivermos a relatar o que estamos a ver é necessário orientar as palavras e por mais pequeno que seja o impulso já se está a descobrir uma nova forma de o dizer.<br />
- Pode ser-se muito fiel.<br />
- Mas são os teus olhos. São os teus sentidos. Eles é que absorvem a informação toda. O que vai sair não é decerto a verdade universal.<br />
- Mas as cores, o tempo, as formas, podem ser traduzidos de maneira linear. Os animais. O encarnado não tem nada que enganar, pois não?<br />
E é um pouco verdade. O encarnado é uma cor perfeita. No entanto, eu gosto de contrariar.<br />
- Mas sei lá eu se não és um irmão daltónico, se tens vertigens ou claustrofobia, se a tua biologia interna funciona a outra velocidade. Isso tudo afecta a perspectiva. Diz-me onde posso encontrar o Quoyle, por favor.<br />
- Não sei. A estas horas as pessoas dormem, não sei se sabes. Porque é que não ligas para os outros jornais, liga para a Tribuna, para o Ponto Final ainda lá devem estar. Ou para o outro, daquele lingrinhas. Não me digas que também escreves para um diário?<br />
- Mais ou menos.<br />
- Mais ou menos?<br />
- Sim, mais ou menos.<br />
A esta pergunta, a quem a fizer, se escrevo para um jornal ou não, respondo sempre da mesma maneira. E não há explicação a dar. Por isso é bom que não a façam. Eu achava que estava a ligar para o Grulhaço Terra-Novense, e que ele me estava a enganar e que na verdade nem estávamos a falar chinês, era só impressão minha.<br />
- Já vi que não tens a resposta na ponta da língua. Mas diz-me lá o que querias do desse Quyole, de que modo iria ele entrar na história.<br />
- Ainda não sei. Só lhe queria telefonar a perguntar. Queria saber se podia contar com ele. Estou a escrever uma peça para um jornal&#8230; Está bem, confesso, é para aí mesmo. Ok, também escrevo para os jornais, também fui picado por esse mosquito. E não é para o da paróquia, está descansado.<br />
- Descansado? Eu quero lá saber. Eu sou o homem da limpeza, já te tinha dito. Leio umas coisas, sim, mas é cá comigo, ninguém me chateia por causa disso. Só estava com curiosidade, mais nada. Queria saber se estavas a escrever uma espécie de ‘Being John Malkovich’. Curiosidade, só isso.<br />
- Não, não, nada disso. Pode parecer até, mas não. Posso até pôr o primeiro parágrafo desse filme aqui, só para enganar. Mas o meu processo é bastante mais simples. Umas coisas sobre a terra. Uns nomes verdadeiros. O Quoyle, se ele quiser. Coisas que se passam. Uns ruídos de fundo. O zumbir do plural dos ares-condicionados a crepitar na boca da redacção. Uma conversa ao telefone, talvez, noutra língua mas com a piada de que é traduzido em instantâneo. Os leitores acham graça a isso tudo e até se riem, acredita. Depois arranjam-se umas quantas outras personagens pelo meio e pronto. Não sei. Nunca se sabe. Mas, assim como as sopas de fita, é só juntar água: engole-se em dois minutos. Tu sabes<br />
- Estou para ver. Tenho pena por só puder ver porque não sei essa língua, não vou conseguir ler.<br />
- Também não perdes nada. Eu conto-te depois, não te preocupes, se me fizeres um favor.<br />
- Um favor? Olha que eu não faço favores a ninguém.<br />
- És como eu, também não faço favores a ninguém, tens toda a razão. Mas olha podes deixar aí um recado para o caso dele entretanto chegar?<br />
- Ele não chega. Não há aqui ninguém com esse nome. Mas eu deixo, se isso te faz feliz.<br />
- Diz-lhe para me ligar com urgência, preciso de saber se posso usar o nome dele. Gostava de usá-lo na minha história. Vou ficar à espera.<br />
- Mas eu não sei escrever em português. Como é que vamos fazer isso?<br />
- Mando-te uma mensagem para o teu telemóvel e tu copias.<br />
- Está bem, até te posso ajudar porque acho piada a esses método de criação. Até me rio com o resultado. O ganir dos galos, os rádios ligados. Está aqui um rádio a dar as notícias da tua terra, podes pô-lo na tua história se quiseres. Ou o barulho da minha mota a subir a ladeira, fica sempre bem um ruidozinho.<br />
- Tens razão. Obrigado.<br />
- E já agora, como se vai chamar?<br />
- “Romance histórico.”<br />
- Muito bem. Acho que o Quoyle não se vai importar, seja lá quem ele for, usa o nome à vontade.<br />
- Achas?<br />
- Sim, não te preocupes. Se ele disser alguma coisa diz-lhe que fui eu&#8230; Boa sorte.<br />
E como não havia mais nada para dizer, desligámos.</p>
<p>* <small>Quoyle é a personagem principal do romance de &#8216;<strong><em>The Shipping News</em></strong>&#8216; de E. Annie Proulx. Na verdade, este nosso amigo estava só a querer telefonar para dentro de um livro.</small></p>
<p><small>[Memória Indulgente #6 • Publicado no jornal <a href="http://www.hojemacau.com.mo" target="blank">Hoje Macau</a> • 18 JUN 2010]</small></p>
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		<title>Toshiba Zoom XR324Y</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jun 2010 01:39:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antønio Falcão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fingo]]></category>
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		<description><![CDATA[Dionísio, o Exíguo (ou seja Dionísio o Menor, significando o Humilde), foi um monge do século VI, nascido na Cítia Menor (c. 470), no que é actualmente a região de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dobruja" target=blank>Dobruja</a>, Roménia, membro da chamada comunidade dos monges da Cítia em Roma. Versado em matemática e em astronomia, celebrizou-se pela criação de um conjunto de tabelas para calcular a data da Páscoa, levando à introdução do conceito de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Anno_Domini" target=blank><i>anno Domini</i></a>, o ano do Senhor.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De noite, a certos dias do mês, trabalho numa empresa de segurança. Sou vigilante e revejo as gravações de certas câmaras espalhadas pela cidade e pelos domínios públicos. Este é um momento desses. Uma história que fui agarrando aqui e ali e que procurei seguir a todo o custo, reajustando os meus horários e o meu tempo livre, trocando as folgas com os meus colegas, que nunca vi. Não me pagam nada por isso, faço-o como voluntário, para combater as insónias.</p>
<p><a href="http://joid.bloomland.cn/wp-content/uploads/2010/06/MemoriaIndulgente_005s.jpg" rel="lightbox[1567]"><img class="aligncenter size-full wp-image-1568" title="MemoriaIndulgente_005s" src="http://joid.bloomland.cn/wp-content/uploads/2010/06/MemoriaIndulgente_005s.jpg" alt="" width="450" height="331" /></a></p>
<p>Estamos numa recebedoria das finanças. Uma vinheta da superintendência governamental. Começa assim.<br />
- Vai lá acima! Foste seleccionado.<br />
- Seleccionado?<br />
- Sim, para a comissão do urso!<br />
O material não é muito bom e a imagem devia ser a preto e branco mas tem uma coloração estranha como se na realidade fosse a cores e tivesse um filtro para daltónicos. Por isso, cada um dos intervenientes aparece com um brilho distinto, um com um silvo fosforescente, que vem como um tiro, e o outro com um tom púrpura, que lhe dá um ar de fantasma. Não sei se é problema do emissor ou do receptor, na requisição deveria estar outra coisa, mas pelo caminho há sempre alguém que mete a mão ao bolso. Às vezes vou para casa a pensar que o problema é meu.<br />
Mais à frente.<br />
- Não dizes nada?<br />
- Que queres que diga?<br />
- Foi uma fortuna ter-te saído a ti. Não te mexes?<br />
Não se mexia por causa dos nervos. E a razão só a descobri mais tarde, depois de investigação prolongada. Na realidade, tinha percebido U.R.S.O., a sigla de um organismo que sempre pensou só ter existência nos seus sonhos ou nos livros aos quadradinhos, e ficou perplexo, com um certo medo em saber o que o esperaria lá em cima, no andar do conselho administrativo.<br />
Para descortinar o que era o U.R.S.O. tive que seduzir uma data de gente para que me desse acesso a documentação privada, mas isso conto depois. Depois da desilusão, que veio logo a seguir.<br />
Gosto das coisas perfeitas, nada é ao acaso, e quando se me mete uma na cabeça levo-a até ao fim, custe o que custar, até àquilo que mais ninguém repara, mesmo que demore um século. E acabo sempre por ser bastante criticado por isso. Assim foi fácil colocar os telemóveis de ambos sob escuta, o parágrafo seguinte veio por SMS numas horas extraordinárias que fiz na brigada das mensagens pedidas.<br />
“Fds meu! afinal eram ursos e nao URSO!”<br />
Nessa altura já eu tinha encaixado um GPS no automóvel de cada um, mesmo em casa sabia por onde é que eles andavam, tal era a obsessão.<br />
O prolongamento do enredo foi então apanhado num engarrafamento de trânsito numa via algures na cidade. Tive de mandar o filme para alguém que decifrasse a leitura dos lábios. Mas hoje em dia consegue-se tudo, na Suíça ou mesmo aqui ao lado. Estava a chover por isso foi um pouco mais caro.<br />
- Eu não te enganei, o urso, toda a gente sabe o que é? Mas conta-me como correu.<br />
- Ao que parece é por causa de uns ursos, foi o que percebi. Ursos para aqui, ursos para ali. Assim que soube que era isso desinteressei-me pelo assunto. Não sei mais nada, não te posso dizer mesmo que queira.<br />
- Desinteressaste-te? Mas tu tiveste uma sorte dos diabos. Sabes quantas pessoas queriam fazer parte disso?<br />
- Não, quantas?<br />
- Só nos nossos serviços para aí um milhão. Nem imaginas a inveja assim que souberam.<br />
A história do U.R.S.O é a seguinte. No ano 27 AC, um grupo de pessoas, de origem indefinida, maioritariamente celtas desavindos, aborrecidos com a vida, decidiram juntar-se em certas alturas do ano para debater a natureza humana e encontrar caminhos para uma existência superior. O nome vem do Latim e quer dizer Uma Rede Sem Ordem. Não tinham indumentária, nem ritos especiais, nem grandes lengas-lengas. Não provavam vinho, nem muito menos o cuspiam de seguida. Acreditavam no Homem, na Natureza e na sua fusão como poder criativo e inspirador, e o que os regia era um simples tratado de astronomia. O fluxo do Sol. As fases da Lua. O breviário das estrelas, e as suas reproduções no céu. As águas e as marés. Tudo como marcadores de uma postura mental. Uma orientação. De tempo e de espaço. E um desejo imenso de fazer melhor, pelos que sobreviriam. Pelo futuro.<br />
Segundo reza a lenda, estamos a falar de uma individualidade onírica, esse documento, encontrado séculos depois numa ermida ostrogoda, viria a ser a base de muitos manuais sagrados, como a Bíblia e o Aldrabão, que viriam a incentivar muitas das religiões dos nossos tempos. Nos pensamentos mais nobres desta criatura de tez transparente, funcionário público dedicado, essa trama ainda hoje subsiste, engrandecida por um universo vigoroso, e a que qualquer momento despertará, para o bem de toda a humanidade e de todos os seres vivos.<br />
Ainda hoje lhe faz confusão os adjectivos que dão aos países, acatados às amarras de alguma religião. E quando, por castigo, houve a “Indonésia é o maior país muçulmano” fica meio desvairado com vontade de apertar o nariz a alguém. Em discussões acaloradas no café refuta toda a sua descompostura, “antes de ser rapaz ou rapariga os bebés já têm uma etiqueta”, como se viesse tudo escrito na ecografia. E por vezes ainda pragueja como quem larga um palavrão dizendo “virgem santíssima!”<br />
E o que o desvia, e o acalma, é o seu pensamento no U.R.S.O., a imaginá-lo a rugir nos confins do tempo, quando os anos ainda não eram anos. A fazer contas de cabeça, a meditar como é que o monge cita, Dionísio, o Exíguo, se pôs a calcular a data da Páscoa cristã e de repente se estava no ano 527. Incrível como o cosmos muda. E antes disso? É tudo de ouvir falar. Como o Rei Herodes, contemporâneo de um certo Cristo.<br />
Muito à frente, no ímpeto da muralha do tráfego, no que restava da câmara 1111.<br />
- Vais andar a passear. És uma pessoa importante agora. Não podes pisar o risco. És um observador. O olhar do povo.<br />
Dizia-lhe o amigo, enquanto arrancavam e o burburinho viário reocupava o óculo da câmara. Ele com certeza ainda a matutar na obliteração nazi e seguramente a dizer para o amigo, de olhos vagos, “e os Judeus são porventura alguma raça?”<br />
De vez em quando cruzo-me com eles na rua. Se os vejo ao longe atravesso a passadeira e fico junto a estes dois amigos, como se fossem as únicas pessoas que verdadeiramente conheço e em quem confio. Já sem a cor lima e lilás que os caracteriza na imagem mas ainda com alguma peça de roupa a condizer.<br />
No outro dia apanhei uma conversa ao telefone. Uma chamada internacional.<br />
- Sabes, hoje abri os ouvidos e fiquei todo o dia atento.<br />
- Sim? Conta, o que se passou?<br />
- Alguém disse que os ursos deviam ir para a assembleia. Que deviam arranjar lá um lugar e fazer umas obras de adaptação. Não custava nada. Que eles são um assunto de estado e que deviam ser respeitados como tal.<br />
- Não acredito!<br />
- Sim e já estavam a atirar ideias para o ar de colocar dois botões enormes no tampo das mesas para que eles pudessem pressionar!<br />
- Para pedir comida?<br />
- Não! Para votarem as leis. Dizem eles que isso é o verdadeiro exemplo de democracia.<br />
- Incrível! E o que disseste tu?<br />
- Não disse nada. Como sabes eu só vim para ver e no final produzo um relatório, é essa a minha função. Mas gostei da ideia. Finalmente fazem alguma coisa pela natureza. De qualquer modo já todos tinham aprovado essa resolução.<br />
Fascinava-o a ideia de ter um U.R.S.O. a comandar os destinos de um povo. E, para além de se ver acordado no seu sonho, já era um bom começo e um exemplo grandioso para restituir o bom nome às nações.<br />
Quanto a mim, que estou do lado de cá, é uma excelente ideia. Talvez me traga o desejado descanso. Terei outras vigilâncias para apreciar e sempre posso ir variando a minha indumentária. O meu rito.</p>
<p><small>[Memória Indulgente #5 • Publicado no jornal <a href="http://www.hojemacau.com.mo" target="blank">Hoje Macau</a> • 12 JUN 2010]</small></p>
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		<title>Talvez e só uma lenda&#8230; sem legendas</title>
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		<pubDate>Fri, 28 May 2010 17:02:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antønio Falcão</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Luís Amorim morreu aos 17 anos. O Vitor Silva anos antes, também jovem, em pleno dia, também foi , igualmente sem justiça. Ambos eram portugueses. Mas não importa a nacionalidade, o que importa é que ninguém, ou quase ninguém, fez nada para tentar apurar a verdade que por vezes vive muito distante da realidade. Na terra onde tudo parece ser a brincar e estar fora do sítio ou ser a faixa errada de um disco riscado. E quantos mais ocuparam a mesma cadeira dos quais nunca se ouviu falar?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um episódio recorrente em Macau, que se aprende mal se chega, é saber o que devemos ou não dizer para que não se comece a pisar um quintal que não nos diz respeito. Tarefa difícil.</p>
<p>O que nos diz respeito então? Se alguém comete uma falcatrua e consegue um negócio vantajoso, no limite de uma certa legalidade, mas ainda do lado de cá, isso decerto não diz respeito a quem está de fora. É um jogador e é apenas mais espertalhão do que todos os outros. É um vencedor no campeonato do seu belo pátio. Ponto final.</p>
<p><a title="E ninguém os viu a passar" href="http://joid.bloomland.cn/wp-content/uploads/2010/05/mtimes1.jpg" rel="lightbox[1548]"><img class="size-medium wp-image-1552 alignleft" title="E ninguém os viu passar" src="http://joid.bloomland.cn/wp-content/uploads/2010/05/mtimes1-262x300.jpg" alt="" width="262" height="300" /></a>Há coisas que nos afectam colateralmente, que sobram de um elemento para o outro e que se arrastam até nós como as marés de um rio. A questão do trânsito, da poluição, a inflação, a eficácia dos serviços governamentais e por aí fora. O que há e o que não há na metrópole onde vivemos. O que devia haver para que essa cidade tenha letra maiúscula e seja considerada como tal e não uma aldeia em que as boas intenções muitas vezes não saem do papel ou da cabeça de quem as pensa. Aqui a humidade periodicamente ofusca as ideias luminosas de quem as produz e as coisas acabam por correr como a água opaca que vagueia por este domínio do Delta. Deixa-se andar. Ninguém vê, ninguém quer saber.</p>
<p>Mas há outras certezas que infectam directamente os alicerces de qualquer sociedade e que não podem ser deixadas passar em claro. O problema das instituições de saúde que são a força que nos protege, que deve estar sempre disponível ao nosso lado em caso de uma emergência, como segurança plena de uma civilização desenvolvida. E não o contrário, o receio pleno que aconteça qualquer coisa e não ter lugar onde ser curado. Depois há a questão premente da Justiça, ponto chave de qualquer estado que se rege pelo primado da lei e do Direito. A justiça, sim. Fala-se dela a toda a hora. O que é justo e o que não é. O que vale e o que fica.</p>
<p>Há coisas que não podem ser escritas de outra maneira. Uma delas é a realidade. Escreve-se com todas as letras e sem enganos. Existe dia após dia, sempre à mesma hora, mesmo sendo um martírio. Por um lado pune-se implacavelmente e de forma exemplar, o suspeito entra no tribunal já com a cama feita, por outro tapam-se os olhos e vira-se a cara para o lado. E o presumível suspeito pode não ser na verdade uma pessoa, é apenas o mecanismo de uma condição, uma peça estragada que se abandona sem espaço para aperfeiçoamento.</p>
<p>A justiça por vezes pratica um delito superior àquele que pretende condenar, evocando o juízo, essa causa nobre, para o fazer. Será que tem consciência do que faz? Será que consegue dormir à noite, descansada? Talvez não. Ou então, desatenta das suas acções, vive tranquila na ignorância de uma posição que não alcança. A virtude. Porque tanto pode assumi-la como pode em seu lugar praticar outro labor qualquer, e estar noutro campo dissonante, como se a posição da justiça fosse análoga à de um cabeleireiro ou de alguém que pinta as unhas. Como do mesmo modo se confunde um médico com um taxista. Mesmo aqueles que acham que fazem o bem muitas vezes estão equivocados e no que lhes podia sobrar de humildade e de desafio, para com isso puderem aprender, perdem-se na arrogância e na insensibilidade que por vezes têm em excesso. Para alguns o destino já está traçado.</p>
<p><span style="text-transform: uppercase;"><b>O caso de Luís Amorim</b></span>, passados três anos sobre os acontecimentos sombrios que levaram a vida desse estudante da Escola Portuguesa de Macau, estão de novo a fervilhar no ar. E por quanto tempo? Quanto tempo até que alguém lhe ponha uma tampa em cima e o atire de novo para um canto, inanimado?</p>
<p>Partimos do primeiro ponto. O jovem português foi encontrado sem vida na via sob a velha ponte Nobre de Carvalho no dia 30 de Setembro de 2007. De pronto as autoridades competentes emergiram ao local dando o vaticínio e resolvendo a história <em>in loco</em>. Sem mais. “O seu filho suicidou-se!”, como quem diz, de maneira indiferente, como se fosse a mesma coisa, “Olhe, suicidaram o seu filho!”, como se de repente esse termo se transformasse em verbo regular bem ao modo da língua <em>maquista</em> em que tudo faz parte de uma pequena peça de teatro, cheia de humor negro. A identidade toda de um povo toda em cima de um palco. Com palmas e gargalhadas.</p>
<p>E já está, esse é o fim da história. Para os pais do Luís é apenas o princípio de uma longa batalha solitária para o apuramento da verdade, que só agora, quase 3 anos depois, vê acender-se uma pequena luz bem lá ao fundo do túnel. Não se trata de obter a verdade mas, no mínimo, por todos os meios possíveis tentar compreender o que aconteceu, dando um passo que seja para lá chegar, memo que daí não se encontre um culpado.</p>
<p>A partir do momento em que as autoridades de Macau obstruem essa opção de imediato estão a obstruir a nossa cidadania, como se ela se movesse como um bate estacas e tivesse semelhante importância. E não se fala de uma só instituição fala-se de uma complexa rede organizada que incita para que o caso seja aglutinado pelo esquecimento. Uma ordem que vem de cima e engole qualquer coloração da verdade.</p>
<p>E pergunta-se, quem em Macau consegue, com um só movimento, controlar em simultâneo a policia, as autoridades judiciais, os oficiais mais graduados do ministério público, os técnicos de saúde que averiguam a precisão dos factos e ainda especialistas vindos do outro lado da fronteira que confirmam a veracidade dessa análise. E ao mesmo tempo, como se tratasse apenas de um interruptor, calassem de rompante a opinião pública com um silêncio de cegos. Quem tem esse poder? Ou quem por essas alturas se deixa controlar de tal modo?</p>
<p>Adivinha-se que é alguém para quem a vida de um jovem é um mal menor de uma figura muito mais complexa e viciosa. E nada que se faça a irá recuperar, ninguém vai trazer o Luís de volta e pode até acontecer que a verdade nunca venha à tona da água e fique para sempre enevoada por entre as mãos ímpares &#8211; ou os pés! &#8211; de quem cometeu semelhante acto. Mas se voltar acontecer, de quem é a culpa? De quem não preveniu, de quem esqueceu? De quem teve medo de trazer o assunto para o quintal, porque é sempre preciso manter as aparências? São tudo questões no ar que vão e vêm com o vento.</p>
<p>Mais questões. As autoridades portugueses presentes no território devem ou não questionar, devem ou não querer saber mais? Ou levadas pela harmonia das gentes, de uma terra que se diz de letra maiúscula, se deixam estar de leque na mão. À espera que chegue o navio para o regresso.</p>
<p>Se de um dia para outro os telejornais trouxerem de novo uma notícia idêntica talvez alguém volte a recordar o nome de Vítor Silva, levado à queima roupa em pleno dia e que não passa de mais um dos números da justiça por apurar e de quem hoje já ninguém sabe da história. E pergunta-se. Calamo-nos ou continuamos a falar? Acredito que muitos devem estar a pensar que talvez seja melhor baixar os braços e absorver o ar puro de uma terra que afinal é de fantoches e não se quer de outra maneira. Ou simplesmente fazer como essa personagem chamada <a href="http://bairrodooriente.blogspot.com/2010/05/prverbial-avestruz.html" target="blank">Leocardo</a> que diz as coisas e não dá a cara, por que a tem enfiada na areia. Preta.</p>
<p>E assim a vida continua.</p>
<p><small>[Memória Indulgente #4 • Publicado no jornal <a href="http://www.hojemacau.com.mo" target="blank">Hoje Macau</a> • 28 MAI 2010]</small></p>
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		<title>Língua portuguesa</title>
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		<pubDate>Tue, 25 May 2010 16:29:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antønio Falcão</dc:creator>
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		<category><![CDATA[curto]]></category>
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		<description><![CDATA[Diz-se para se ouvir. Mas em certos modos, épocas, construções químicas, esse processo não se realiza. Existe apenas a sensação. O desejo. O sabor daquilo que não se explica por palavras. E como tal, não pelo dizer ou pelo ouvir. Os olhos fecham-se e um sentido contundente do que somos, e que se reflecte num outro ser, ataca-nos sem mais lembrança. Sem mais representação. E tudo isso é um transporte para uma felicidade em pleno. Uma espécie em vias de extinção.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não vivo na Ásia. Quero sempre pensar que estou apenas de passagem. Como todos. Mas eu vivo mais para cima, mais a Norte. E o norte sabe sempre tão bem.<br />
- És portuguesa? &#8211; perguntei-lhe.<br />
Ela não respondeu.<br />
- Não és portuguesa, o que podes ser? Do you speak english? &#8211; quis continuar.<br />
O silêncio manteve-se. Mas quando virou a página do livro que estava a ler, os seus olhos perderam-se por um instante, nos meus. E sorriu, leve, já sem olhar.<br />
E sorriu de novo, nos meandros da página seguinte. Com mais intensidade. Eu ali a um pouco de distância, dois passos <i>away</i>. Não era chinesa, nem japonesa, nem tailandesa, isso podia ver-se pela sua cara. Podia ser imensa coisa.<br />
Em todas as páginas, debruçava o seu tempo no meu, cada vez com menos pressa.<br />
O livro era em português, todavia. Mas isso não queria dizer muito. Podia coleccionar letras, a fugirem das palavras que não compreendia. Ler não quer dizer nada, se não se ouve. E eu não estava a ouvir um sopro que fosse. E estava tanto vento lá fora.<br />
As páginas andavam para trás e para a frente. Desnorteadas.<br />
Eu sorria. Desde o princípio de mim, que eu sorrio.<br />
- &#8220;Lês?&#8221; &#8211; disse ela. Imaginei eu.<br />
- &#8220;Leio!&#8221;<br />
- &#8220;Podes ler-me uma história?&#8221; &#8211; E eu li-lhe todas as histórias.<br />
Nessa altura, sem imaginar, estávamos de mão dada. Numa só. Ela ao meu lado. A caminharmos na rua. Um sol bonito. Um céu refrescante. Os anos talvez já tivessem passado.<br />
Não falámos, porque eu não sei falar. E também não sei dizer. Eu sei apenas sorrir. E olhar.<br />
E o que me pareceu foi que ela também não fazia mais do que isso. E quando o percebi, beijei-a.<br />
E beijei-a de novo.<br />
E as nossas línguas conheceram-se, finalmente, numa das duas bocas.<br />
A minha sei que é portuguesa. A dela não sei, porque, na verdade, não importa. Se não é preciso falar.</p>
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		<title>Dezoitorizante</title>
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		<pubDate>Tue, 25 May 2010 16:15:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antønio Falcão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Velox Vehemens]]></category>
		<category><![CDATA[lime + purple]]></category>
		<category><![CDATA[português]]></category>
		<category><![CDATA[sonho]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>

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		<description><![CDATA[O tempo nem sempre corre como devia correr. Por vezes escapa-se para acontecimento incerto. Algures no passado ou no futuro. E o que fica é uma brisa. Um estalar de dentes. Um sorriso. Um eco. De uma coisa que já se foi. Há muito tempo. É mais um pequeno momento de Lime e o seu inseparável Purple.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>-Sabes?<br />
- O quê?<br />
- Se sabes?<br />
- Se sei o quê? O que queres que eu saiba?<br />
- Nada, é só uma maneira de dizer.<br />
- Mas de dizer o quê? O que queres tu dizer?<br />
- De dizer, de falar. De me iniciar.<br />
- Iniciar?<br />
- Sim, começar uma conversa.<br />
- Que conversa?<br />
- Nós os dois aqui. Neste momento.<br />
- Ahh&#8230;<br />
- Sabes?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Os números da taluda</title>
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		<pubDate>Thu, 13 May 2010 17:09:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antønio Falcão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rudimentum]]></category>
		<category><![CDATA[anão]]></category>
		<category><![CDATA[gigante]]></category>
		<category><![CDATA[hoje macau]]></category>
		<category><![CDATA[memória indulgente]]></category>
		<category><![CDATA[português]]></category>

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		<description><![CDATA[Daqui a uns anos. Talvez cem, talvez mil. Quem sabe mais. O mundo vai dar uma volta. E esta coisa que o habita. Com estas máquinas que usa. Vão misturar-se numa unidade só. Funcionando em parceria sem mais quebras. Sem mais atrasos. E depois? Depois tudo passa para o interior e não é preciso mais nada. Este é um texto premonitório de uma memória que absorve tudo. A memória indulgente.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho a impressão que, mais cedo ou mais tarde, os computadores vão acabar. Não de um momento para o outro, à maneira de um tremor, mas gradualmente, muito semelhante a uma viagem, assim como alguém que apanha um barco e quando chega, à terra de onde antes partiu, encontra um mundo novo. Não totalmente diferente. Não desconhecido. Mas o seu lugar nativo que tanta felicidade lhe traz, trajado de outro jeito. Limpo, corriqueiro, eficaz. A satisfazer a evolução do Homem, que se articula aos pedaços.</p>
<p><img src="http://joid.bloomland.cn/wp-content/uploads/2010/05/MemoriaIndulgente_003ss.jpg" alt="" title="Taluda" width="450" height="329" class="alignnone size-full wp-image-1527" /></p>
<p>Veja-se, agora, para que serve a comodidade desses instrumentos e a que distância estamos dessa mudança aparecer. Na realidade, e isto não é nenhum exagero, não estamos muito longe. Falta bastante menos do que o que levámos para aqui chegar. Diria mesmo que está a um passo de acontecer. Como o esticar de um braço, o abrir de uma janela, um engano a passar. O fôlego quente do ar que se solta dos pulmões. Um salto. É tão elementar como isso.</p>
<p>Usamos estas ferramentas diariamente mas o que são e como o fazem, embora seja visível o resultado, ninguém sabe bem. Ninguém sabe como é que uma imagem se estende pelos poros de um ecrã. Como é que evolui. Como ninguém sabe que fórmula química procede a clareza de um desenho no papel. O que quero dizer, é que o processo, desconstruído até ao último estado, é idêntico. E responde apenas a uma série de questões, um percurso para lá chegar, com dois tipos de resposta: sim ou não. O mesmo que zero e um. Preto ou branco.</p>
<p>Se calhar não me explico bem. Decisivamente este não é o melhor modo de dar início a esta história. Vou recomeçar. Não é uma história, por assim dizer. Mas pode ser que conte alguma coisa.</p>
<p>A memória, o objecto onde se guardam as recordações e tudo aquilo que causamos, não tem fim e por sua vez não tem espaço. Virada do avesso, a memória, temos o Universo, um multiplicar de infinitas galáxias, com os seus buracos negros e os seus irrepetíveis sóis. Os seus génios. </p>
<p>“Explique melhor, senhor professor”, dizem lá atrás. “Não estou percebendo”, é um aluno com um pouco de sotaque brasileiro, mas não brasileiro de todo.</p>
<p>Ora bem, um computador, uma memória. E agora?</p>
<p>Um dedo no ar na segunda fila. É uma aluna com ar eslavo, mas não totalmente. Ninguém aqui é por inteiro qualquer coisa. Dou-lhe a palavra.</p>
<p>“Eu sei”, diz. “Os computadores na verdade não existem. Nós vemo-los, fazemos uso deles para tudo o que nos é importante. E quem diz computador, diz outra coisa qualquer. Têm o seu volume, a sua cor, um leve aroma. Mas não são nada. São apenas algo que vemos e sentimos, pelo olhar, pelo tacto. Mas tudo se passa cá dentro!”, e chega o seu longo dedo indicador a uma das têmporas, como um pica-pau.</p>
<p>Não estamos numa aula. Não estamos em parte alguma. Caminhamos. E não está aqui ninguém. Nem brasileiros nem eslavos.</p>
<p>Não sei quanto tempo vai durar, a viagem até à terra natal. O campo torna-se cada vez mais amplo e mais disperso, mas a cada momento mais exacto e mais denunciado. Um fiel pasmo. Ainda brincamos às coisas. Os americanos brincam às guerras, os gregos brincam aos troianos e afundam-se na sua bancarrota como se mergulhassem no mar. Mas é apenas um jogo. Uma moeda que se enfia numa máquina-da-sorte e cai em voo controlado. Com o seu peso e a sua gravidade a redigir o resultado. É uma diversão. Não é a inteligência do Homem a trabalhar. Não é o que ele sabe fazer. Tanto faz, na verdade. O tempo gastasse, mas também o tempo não acaba. E o Homem pensa, mesmo sem pensar, que algum dia isto vai ser diferente. Vai ser muito melhor.</p>
<p>Agora não importa muito. Estamos nos primeiros minutos de jogo. Veja-se a grande China, por exemplo, é apenas uma história para crianças. Crianças de todo o mundo, com uns gatafunhos que não lembram ao diabo. Porque na realidade, se isto contasse, não era assim. As pessoas saberiam como reagir. Saberiam o que viria por A+B. Perceberiam que a fórmula do poder não é de todo convincente. Ou palavras como democracia, liberdade, independência, não são mais do que pequenos tratos. Uma manteiga que se barra no pão, e que se vai comendo às dentadas, devagarinho. Estão ali para iludir, para dizer qualquer coisa. Um embuste de uma mente que tem muito mais para fazer, que tem um largo domínio de reacção, tão colossal como qualquer universo, só que não está para isso. Ainda.</p>
<p>E alude-se a advogados, a administradores de ministérios, a acólitos. Mas que é isto, para que serve? Serve para se justificarem a eles próprios. A sua função, a sua proveniência. Servem como a areia da praia serve para dizer que aquilo é areia da praia.</p>
<p>“Senhor professor?”, reboliço na sala. “Então?”</p>
<p>Dentro de um computador existem umas peças. Uns encaixes. Há material físico de várias cores. Alguns deles dialogam com os outros. Uma pequena parte corrige os erros de tudo o que está lá dentro. Por dosagens matemáticas precisas. Que no díodo do seu composto rectificador, de sins e nãos, constroem o que vemos no monitor. Preto no branco. Um arco-íris. E é o que vemos em qualquer parte, átomos em choque por todo o lado, cheios de animalejos e de fórmulas tremendas, mas numa harmonia sem igual. Uma parede. A tecla de um piano. O olho azul, tão transparente, daquela rapariga bonita.</p>
<p>“É isso, não é?”, pergunto.</p>
<p>Mas no recinto já não está ninguém. Todos partiram para o recreio. Os seus pequenos confrontos. O copo de leite. A paixão assolapada. Os seus disfarces naquilo que lhes disseram para desempenhar. Hoje és policia, amanhã és um ladrão.</p>
<p>É simples. Esses zeros e uns que agora se espalham pelos discos duros dos engenhos informáticos vão transferir-se para o corpo humano e instintivamente para a natureza. Juntar-se-ão a tudo o que já existe. À larga população de protões, electrões e neutrões. E as pessoas, os animais, as coisas, vão sofrer essa modificação determinante para a proliferação da vida na Terra. Vão finalmente fazer aquilo para que estão aptos. Uma sessão de cinema não vai passar fora, mas dentro do olhar. Na orla do que perfaz a imaginação. Não serão precisos efeitos especiais, nem os milhões devorados na sua produção. Será simples. Eficaz, claro, vulgar. Os sonhos tornados peças de fruta.</p>
<p>Não se trata de nenhuma religião ou crença sem sentido, é a verdade, é o futuro que se apresenta em sintonia, e como prolongamento, de tudo o que fizemos até agora. Os tempos clássicos, a mitologia greco-romana, os egípcios e depois os árabes. Da Vinci e Einstein. Eisenstein e Qualquer Coisa que o Valha. A Maçã de Adão e a Apple. Tudo isso são estações, com as suas intempéries, os seus virtuosismos, que nos trouxeram até aqui, até este estádio inundado de gente.</p>
<p>Todos irão perceber que deus não existe, que isso tudo é uma parvoeira e apenas uma palavra. Que a felicidade e o sucesso são apenas uma fórmula, que o bem estar é como os dedos de uma mão. São cinco. Ou dez, conforme o ponto de vista. Um número. Uma coisa definida fácil de montar. Como o celibato ou a lucidez. Mas que no entanto se suplanta pela sua biodiversidade e,que na sua mais aprumada configuração jorra de prazer. Para sempre.</p>
<p>É isso que faz o Homem. São essas as suas capacidades. Tanta recordação. Tanta matéria testada. Tanto sangue em correria nas veias, o barco que parte e regressa ao seu porto, vezes e vezes sem conta, e no entanto parece que não querem aprender. Que não querem encontrar o mundo novo. Contentam-se com as Mil e Uma Noites e o Tom e o Jerry. Mas eu acredito que falta muito pouco, que está mesmo ao virar daquela esquina. É uma questão de dias. De luz. De escuridão</p>
<p>“E os números da taluda, senhor professor?”</p>
<p>Abro os olhos, só para ter a certeza. Na sala não resta ninguém. Nada de novo, portanto.</p>
<p><small>[Memória Indulgente #3 • <a href="http://www.hojemacau.com.mo" target=blank>Hoje Macau</a> • 17 MAI 2010]</small></p>
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		<title>Nature boy</title>
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		<pubDate>Wed, 12 May 2010 17:57:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Antønio Falcão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Velox Vehemens]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[descobertas]]></category>
		<category><![CDATA[português]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>

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		<description><![CDATA[«Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a indelicadeza de o ter ursupado previamente. Os nossos nadas pouco diferem; é vulgar e fortuita a cicunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios e eu o seu redactor.»
<small>Jorge Luis Borges
[nota em <i>Fervor de Buenos Aires</i>]</small>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://joid.bloomland.cn/wp-content/uploads/2010/05/27s.jpg" rel="lightbox[1516]"><img src="http://joid.bloomland.cn/wp-content/uploads/2010/05/27s.jpg" alt="" title="27s" width="450" height="334" class="alignnone size-full wp-image-1515" /></a></p>
<p>- Deus? É Deus que querem?<br />
- Sim, é. &#8211; responde Mikkel.<br />
- Deus não se mexe.<br />
- Não se mexe? Como não se mexe? Tem alguma doença?<br />
- Não se mexe, não se toca.<br />
- Sim, não se toca, é Ele que nos toca a nós.<br />
- Toca sim&#8230; &#8211; continua Anders, o filho mais novo, um pouco excitado.<br />
- Deus não se muda, não se veste. Não tira. Dá!<br />
- Dá o quê?<br />
E nisto entra pela porta um homem com um ramo de flores. Eram para Karen, a empregada dos Borgen.<br />
<small>[baseado no filme "Ordet" de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Carl_Theodor_Dreyer" target=blank>Carl Dreyer</a></i>, de onde foi retirada a imagem]</small></p>
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		<title>Moço de recados</title>
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		<pubDate>Wed, 12 May 2010 17:07:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ring Joid</dc:creator>
				<category><![CDATA[Velox Vehemens]]></category>
		<category><![CDATA[anão]]></category>
		<category><![CDATA[lime + purple]]></category>
		<category><![CDATA[português]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Queres dizer alguma coisa, mas não sabes como, por isso inventas, inventas largo, e dizes o que não deves dizer, porque na verdade não sabes falar, sabes sentir, sim, sentes à tua maneira, mas não sabes falar, não sabes contar, balbucias, depois ninguém te pode aparar e aí é que são elas!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>-Sabes o que é que me fode mais, Lime?<br />
- O quê, Purple?<br />
- Não ter certezas, certezas absolutas.<br />
- Não tens certezas absolutas, tu?! Essa é que é boa! Ah Ah Ah AHA AH AH&#8230;<br />
- De que é que te estás a rir, parvalhão?<br />
- AH AH AHA!<br />
- Ri-te à vontade, estende-te ao comprido se te apetecer mas a mim fode-me não ter certezas absolutas&#8230;<br />
- Ah ain ah ah&#8230; Mas, ain ah, diz-me lá tu, Purple, tu não gostas de gajas?<br />
- Sim, gosto, gosto muito.<br />
- Vês, aí está uma certeza absoluta, grande camelo!<br />
- Falo precisamente de gajas mas não estava a ser tão superficiel?<br />
- Superficiel?<br />
- Desculpa, superficial&#8230;<br />
- Superficial?<br />
- Sim, não se trata de limitar a discussão ao gostar ou não gostar&#8230; a crise é quando não sabes o que é que é mais importante&#8230;<br />
- Explica-te, caralho!<br />
- Sim, de um lado está o gostar muito do conforto e do outro o gostar muito do desejo&#8230;<br />
- Quê?<br />
- Não ter a certeza do que é amar&#8230;<br />
- Nunca amaste, é essa a tua dúvida dentro das certezas, dromedário?<br />
- Dormedário?!<br />
- Não tanso, eu disse Dromedário.<br />
- Está bem, adiante-se, amar amei mas nunca percebi até onde chega esse amar.<br />
- Esse amar não te deu para mudares a vida do avesso e vai daí achas que o teu amar não é coisa que se veja, se bem te entendi&#8230;<br />
- Pois e essa merda fode-me!<br />
- Olha, sabes que mais?<br />
- Que mais?<br />
- Anda daí que eu pago-te um copo.<br />
- Vamos.<br />
- E sabes que mais, não existe amar de amor de verdade. Nós queremos foder e fora isso temos é muito medo de estarmos desamparados, sem Mãe ou qualquer coisa que se lhe pareça. Nós sem Mãe não somos coisa que se veja. Elas não querem ficar desamparadas do pé para a mão, sem alguém que tome conta delas e dê ordens e lhes decida o rumo da vida e, muita vez, tal como nós confundem o amor de verdade com amar de teatro e de filmes, &#8216;tás a ver?!<br />
- Foda-se, Lime, tu és um génio, caralho!</p>
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